sábado, 19 de janeiro de 2013


Nuno Bragança
O livro, intitulado com o nome, “noite e o riso” surge em 1969 e constitui uma nova novidade literária pelo desafio que faz ao modo de construção de uma narrativa tradicional.
Um tríptico, na pintura, é um conjunto de 3 painéis, um central e dois laterais com temática, em geral, relacionado com o central.
O escritor evidência, nos seus textos ideias, tais como: a literatura e a busca de uma sociedade mais justa. Ideias sempre nortadas por uma visão cristã do mundo (visão sempre muito destacada), entendendo os valores cristãos com pilares da justiça, que repudiam a repressão e o ódio. O seu texto funciona como grito interior, sendo o despertar de uma inquietação. Ora, a hora esta dividida em três Painéis.

I-Painel
Este primeiro Painel, expressão singular, “criada embora entre hábitos de faisão”, cedo me especializou na arte de estender os braços”, aludindo aqui a infância do eu/narrador, vivido no seio de uma família aristocrata, que renuncia à cultura artística, cujas regras conduzem a um percurso de romper. A necessária e urgente, transmitir essa inquietação vivida que entusiasma o narrador.
Na análise que faz as relações Família-Criança, Nuno Bragança põem em questão todo o processo educacional estabelecido no seu tempo que é baseado na competição e não na cooperação. O desajustamento da criança com as regras que são instituídas e a imposição dessas normas são motivo de um sarcasmo e de troça cruel que impõem o ritmo do discurso, sempre variável, bem como a escolha de palavras ou expressões cómicas que escondem a sua comicidade numa aparente rigidez.
A construção do discurso do primeiro painel assenta na ironia fina, acompanhada por uma criatividade a nível semântico e por uma arbitrariedade na sintaxe, eximiamente exploradas pela disposição do eu-narrador para criar obstáculos da leitura, e ao mesmo tempo, seduzir. Tudo é justificação para a sua obsessão pela escrita, então avança com uma escrita de inquietação e de interpretação. A inquietação foca o fundamentalismo o tema da mote, cujos contornos são bastantes visíveis logo na dedicatória. O livro é dedicado a Carolina Fonseca Caupers, mãe de primeira esposa do escritor, porque “foi uma pessoa que me ensinou como se morre”. A filosofia existencialista revela-se aqui como uma das bases possíveis de análise da obra.

II-Painel
 O primeiro painel é preenchido, por uma infância imposta junto da Família. Este painel, por sua vez, o qual corresponde no tríptico ao painel central, aparece o mesmo eu/narrador noutra fase, isto é, exprimindo conhecimentos advindos da sua actividade de viajante (com Simão e Gaspar), para posteriormente, atingir o auge com a rapariga do canavial, Luísa Estrela e Zana.
No capítulo intitulado a Zana, Bragança introduz uma carta, género literário tão ao gosto do Romantismo português, onde recorda o seu passado com Zana.
O texto de Nuno Bragança nutre-se com a expressão do feminino, logo a ausência deste capítulo estimula, incute nas palavras um estado moribundo que se vai intensificando até ao final do romance.
 Anabela, aparece para substituir Zana, a presença paliativa, força para tentar inverter a curva descendente. Todavia, o homem não consegue iludir o leitor, visto que deixa escapar os sintomas da solidão que o atravessa. Este painel e extremamente sóbrio e distante.

III-Painel
 A conclusão do tríptico, terceiro painel, inicia-se com uma só frase, numa página em branco: “ Escrevo isto debaixo de um freixo que por acaso é um pinheiro seco” pode considerar se um titulo a todo o painel, que desenha uma metáfora de auto reflexividade literária, perfeitamente supérflua para a exegese do derradeiro painel.
O combate do eu/sociedade volta a estar novamente no centro do painel. Exige-se mais do que nunca, aqui, ao leitor um esforço suplementar para enfrentar as ideias fragmentárias que vão nascendo, no painel.
Constata-se, neste ultimo painel, um ressurgimento de temas que consagram outros testos anteriormente apresentados sob a forma de paródia. Agora, com pinceladas leves, a condição da mulher, o Estado, a justiça, as condições e desigualdades sociais, a imbecilidade da opulência, marcam presença. Neste terceiro painel, o narrador foge do nexo para apalpar a realidade, procurando transmitir a sua ausência na realidade. Estas reflexões são espelhos da realidade.     

  


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