quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Sobre Fernando Pessoa

A propósito da minha apresentação de amanhã, e porque o tempo escasseia e que alguns já viram este vídeo numa outra apresentação minha, cá fica um vídeo interessante sobre o meu autor...


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Leitura teológica de Por que motivo se rebelam os pagãos? de Flannery O’Connor



  Desde o início do texto até que se lança o diálogo entre Walter e sua mãe (pp. 185-186) é-nos apresentado a situação de pano de fundo desafiante para o questionado Walter. Este pano de fundo corresponde ao regresso de Tilman (pai de Walter) a casa depois de um acidente vascular cerebral. A posição de Walter é questionada face a este problema, e é nesta chave de leitura que salto para a minha leitura teológica: a da via sacra, paixão e morte de Jesus. Passo a explicar, no trecho referido, são enunciados temas ou figuras que poderão ser remetidas para a via sacra, paixão e morte de Jesus que será assumido na personagem de Tilman. Este último “tivera o acidente vascular cerebral na capital do estado”, qual Jerusálem onde Jesus dera a sua vida. Mas sucedem-se as imagens: “Não tinha memória do regresso a casa na ambulância, mas a esposa lembrava-se bem. Passara duas horas sentada no assento desdobrável aos pés dele, a olhar fixamente para o seu rosto.” “Não tinha memória” como Jesus morto que é levado para o sepulcro e, por isso, só a esposa (Maria e a Igreja) “lembrava-se bem” guardava memória destes acontecimentos. “Aos pés dele, a olhar fixamente para o seu rosto” sugere-nos a tradição da Sra da Piedade que segura o seu filho nos braços que contempla o seu Filho morto. Também os motivos da cara nos poderão fazer retomar, não só o que se disse com a ajuda do Padre Pedro Boto acerca da cara de Jesus na Pietá de Miguel Angelo, mas também as últimas palavras de Jesus a cruz. “A justiça era coisa cruel e a esposa dava-se por satisfeita quando aquela lhe assistia”: esta é a oração de Maria junto à cruz, quando retoma o “uma espada trespassará a tua alma” e “guardava todas estas coisas em seu coração”.
  Adiantando-me um pouco no texto, insiro aqui o “- Levanta-te, Walter, vai abrir a porta!” como clara inversão do que fizera o Cireneu, mas que não deixa de testemunhar aqui a entrada do desafio na vida de Walter. E nesta linha, inserimos também aqui o “observou, nitidamente fascinado o rosto do seu pai” de alguma maneira afectado pelo acidente não seria fácil encará-lo e esta é uma emblemática imagem usada para ilustrar o rosto sofredor de Jesus.
  Para concluir esta breve reflexão acerca da “via sacra” surge como brincadeira Roosevelt, o escravo que chora por seu patrão sem compreender bem a sua situação de escravo provavelmente, o que nos actualiza a imagem das mulheres de Jerusálem que antes deviam chorar por seus filhos.
  “Talvez esta desgraça fosse o que era preciso para Walter acordar.” Este é o desafio do encontro com Jesus morto e ressuscitado, como presenciamos no exemplo do bom ladrão ou do centurião e para aí se encaminha a continuidade do texto de Flannery O’Connor.

Por que motivo se rebelam os pagãos?
Entrar neste conto de Flannery O´Connor é como entrar num edifício cristão onde as palavras se revelam e nos permitem olhar aquilo que já conhecemos em outros momentos ou em outras passagens.
A começar pelo olhar ferido com que olhamos estes momentos dolorosos encontrados na morte e na crucificação de Cristo, desgraça essa que desperta para o implacável, para o impressionante da vida, surge-nos um caminho de esperança - o momento de chegar a casa e reencontrar aqueles que mais amamos e que nos esperam… sentido a forte respiração por um momento especial que raras vezes acontece nas nossas vidas.
Passando pelos dedos, que marcam e demarcam a experiência de cada um, como quem marca um parágrafo do livro quando pára, pensando e dando sentido às palavras que o atravessam, numa busca desmedida de sentido para explicar todo o momento da paixão.
Os sentimentos fortes que se sentem num caminho, numa experiência que abre horizontes, que demarca as nossas faces com lágrimas e que num momento de morte olha, olha para o alto como quem se entrega por inteiro. E nesta forte experiência o rosto da mãe endurece ainda mais, o coração aperta, a boca transforma-se em indignação e a cabeça treme, uma “revelação instantânea de que o filho não tinha lar. Não tinha lar aqui e não tinha lar em lado algum”.
Este homem, diferente, que se ocupava de trivialidades, de temas que não faziam sentido, que apresenta um amor que deve ser “pleno de fúria”, que adverte aqueles que não sabem o que fazem na casa de seu pai, daí que se apresente como um general - que julga os vivos e os mortos, denominado de Jesus.

Antonino Gomes de Sousa 

“Por que motivo se rebelam os pagãos?”
Imerso no esforço de encontrar o evangelho neste conto deparei-me com um cenário de cores variegadas, um verdadeiro caleidoscópio, onde pareciam estar imbricados múltiplos traços de figuras que de alguma forma estavam presentes no Evangelho.
Intrigado desde logo pelo título “Por que motivo se rebelam os pagãos?” vi esvair-se a esperança da resolução da questão na última página do conto.
Não me deixei intimidar e procurai centrar-me no pedido, a saber, descobrir no texto as fontes bíblicas inspiradoras, numa tentativa de leitura teológica. O aparente protagonismo de Tilman e o hipotético paralelismo com o Cristo sofredor da cruz saíram malogrados pela inversão do protagonismo.
Walter, o filho rebelde surgiu com a luz do centro do palco. Atormentado pela desinquietação da mãe, Walter ferido pela modorra da existência parece agir apaticamente como um inútil, um“pau mandado”: “…vai abrir, a porta!”; “Fecha a porta estás a deixar entrar moscas.” Um filho distante e, por isso, inicialmente imagem adequada do filho pródigo (Lc 15, 11-32)absorto nos seus interesses e alheio a vontade dos pais. Ideia confirmada pela ausência de um lar, de uma casa: “…o filho não tinha lar. Não tinha lar aqui e não tinha lar em lado algum.”
Se por um lado, diante da iminência do compromisso Walter parece esquivar-se, por outro, apresenta-se como aquele que reconhece o valor da sua mãe, do seu potencial subaproveitado. Mary Maud evocou dentro de mim o episódio da mulher adúltera (Jo 8) que viu a sua dignidade ser restituída por Cristo. Assim faz Walter: “Uma mulher da sua geração é melhor do que um homem da minha”.
Quem era então Walter? Alguém que gostava de passar despercebido evitando escrever a título próprio, recorrendo a personalidades, alheio ao farisaísmo que tinha marcado a existência do pai e do avô. O ser de Walter estava envolto no mistério – “Era impossível perceber o que Walter sabia, ou quais os seus pontos de vista[…]”. Se ausente dos problemas da atualidade era atento a voz das palavras mais vetustas com que cismava, deslumbrado.
Seria personificação de Cristo, igual a nós, mas, ao mesmo tempo, tão especial?

“O homem”
Em “O homem” de Sophia de Mello Breyner Andersen as raízes bíblicas, tal como numa árvore de grande porte, pareceram-me profundas, mas salientes à vista.
O “homem” parece identificar-se imediatamente com Cristo, coarctado na figura do pobre andrajoso que passa despercebido ao asco humano. Este cristo que leva ao colo um belo menino. Paixão e incarnação parecem coabitar nesta figura. Na beleza da criança está a expressão do belo pastor – “[…] levava ao colo uma criança loira, uma daquelas cuja beleza não se pode descrever.” No corpo do homem pobremente vestido esta Cristo crucificado desmazelado pelo nosso pecado.
Esta imagem despoleta a atenção de um transeunte no meio da correria da caterva desinteressada. Tal como no crucificado encontramos Cristo a olhar para o Céu expectante por um sinal do Pai numa atitude de “[…] resignação, espanto e pergunta.”  As planícies irrelevantes do céu são o sinal evidente do silêncio de Deus. Tal como os judeus, o transeunte sente-se tentado a seguir o mesmo caminho da turba multa, tal como no episódio do samaritano sente-se tentado a passar ao lado como muitos o fizeram. Todavia, desenhou-se a partir das memórias, dos livros e das fotografias a expressão de consumação: “Pai, Pai, por que me abandonaste?”.
Num ápice tal como o crucificado, o homem cai às mãos da morte, “manchado de sangue” e sepultado pelo interesse desinteressado da multidão dispersa. Porém, o homem como que ressuscitou –“[…] continua ao nosso lado”.

Sophia de Mello Breyner Anderson- O Homem

O conto de Sophia sublinha, repetindo pelo menos por três vezes, o homem que caminha: “muito devagar” (…) “lentamente, muito lentamente” (…)”caminhava muito devagar”. A reportar à caminhada do homem, sobre a terra, ele é muito lento a dar a vida; o homem faz resistência a dar-se e a dar-se totalmente a Deus, por isso, caminha muito devagar. Jesus carregou a cruz para dar a vida, não fez resistência. Fil 2,8 “Aparecendo como homem, humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz”.
Por várias vezes, também encontramos no texto a alusão ao céu, ao olhar para o céu como: um lugar de silêncio, frio, lugar de onde se espera uma resposta. O homem anda na terra mas caminha para o céu, onde está Deus. Anseia pela morada eterna. Salmo 121,2 “Elevo os meus olhos para os montes de onde me virá o auxílio o meu auxílio vem do senhor que fez o céu e a terra “. Este homem pobre, miserável que nos fala o conto e que ninguém repara é Jesus, na sua paixão todos olham mas ninguém vê o mistério de amor, como que há uma indiferença, como hoje estamos indiferentes, acomodados e Deus, praticamente não conta, não lhe damos importância. O conto acaba afirmando que mesmo assim, e apesar de tudo isto, o homem (Deus) continua ao nosso lado, diríamos do nosso lado. 
Por isso, o caminhar deve ser  o mais longe que se pode ir…

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Uma perspectiva do conto "Por que motivo se rebelam os pagãos?"

No conto "Por que motivo se rebelam os pagãos?" de Flannery O'Connor, procurarei abordar brevemente a relação entre a mãe e o filho, Walter. A mãe sofre com o filho. Julga tê-lo perdido. Teme já não o conhecer. Esta relação entre mãe e filho traz-me à memória a perda e reencontro de Jesus no Templo entre os Doutores. Também aí, ao encontrar Jesus, Sua Mãe pergunta: “Filho, porque procedeste assim connosco? Não sabias que Teu pai e eu andávamos aflitos à Tua procura?” (Lc 2, 41-52). A comparação entre estas duas Mães e estes dois Filhos é certamente arriscada, mas poder-se-á desenvolver. De facto, há alguns pontos de contacto entre a Mãe e Nossa Senhora: de Nossa Senhora, sabemos que “guardava todas as coisas em seu coração”, isto é, todos os acontecimentos que contemplava eram meditados em silêncio, não entendendo tudo mas aceitando e procurando compreender os desígnios de Deus. Inclusivamente, no episódio da perda do Jesus no templo, Maria apercebe-se de que o Filho reencontrado, embora submisso, está diferente. De forma semelhante, sabemos neste conto que “o coração da mãe apertou-se” (pág. 188), ao ouvir a resposta de Walter. Igualmente ficou gravado no seu espírito aquela passagem que encontrara no chão da casa de banho. Este coração da mãe que acolhe os acontecimentos, que se gravam no seu espírito, é um coração mariano, inquieto perante a vida do filho. Também há algum paralelismo entre Walter e Jesus. Walter diz: “Julgava que estava na minha casa (pág. 188)”. Jesus respondeu aos seus pais, quando estes O encontraram no templo: “Porque me procuráveis? Não sabíeis que devia estar na casa de Meu Pai?”. A referência à casa, ao próprio lugar, o caminho rumo à descoberta de si mesmo, é comum entre Jesus e Walter. Por outro lado, como exemplo duma possível contra-argumentação, poder-se-ia alegar que Walter “tinha ar de quem aguarda um grande acontecimento e não deita mãos a obra nenhuma” e Jesus, pelo contrário, na sua vida oculta trabalhou com seu pai, S. José, não caindo na ociosidade. Certamente muito mais se poderia dizer, mas ficarei por aqui, até porque não é esse o objectivo deste comentário.