“Por
que motivo se rebelam os pagãos?”
Imerso no esforço de encontrar o evangelho neste
conto deparei-me com um cenário de cores variegadas, um verdadeiro
caleidoscópio, onde pareciam estar imbricados múltiplos traços de figuras que
de alguma forma estavam presentes no Evangelho.
Intrigado desde logo pelo título “Por que
motivo se rebelam os pagãos?” vi esvair-se a esperança da resolução da questão na
última página do conto.
Não me deixei intimidar e procurai centrar-me
no pedido, a saber, descobrir no texto as fontes bíblicas inspiradoras, numa
tentativa de leitura teológica. O aparente protagonismo de Tilman e o
hipotético paralelismo com o Cristo sofredor da cruz saíram malogrados pela
inversão do protagonismo.
Walter, o filho rebelde surgiu com a luz do
centro do palco. Atormentado pela desinquietação da mãe, Walter ferido pela
modorra da existência parece agir apaticamente como um inútil, um“pau mandado”:
“…vai abrir, a porta!”; “Fecha a porta estás a deixar entrar moscas.” Um filho
distante e, por isso, inicialmente imagem adequada do filho pródigo (Lc 15, 11-32)absorto nos seus interesses e alheio a
vontade dos pais. Ideia confirmada pela ausência de um lar, de uma casa: “…o
filho não tinha lar. Não tinha lar aqui e não tinha lar em lado algum.”
Se por um lado, diante da iminência do
compromisso Walter parece esquivar-se, por outro, apresenta-se como aquele que
reconhece o valor da sua mãe, do seu potencial subaproveitado. Mary Maud evocou
dentro de mim o episódio da mulher adúltera (Jo 8) que viu a sua dignidade ser
restituída por Cristo. Assim faz Walter: “Uma mulher da sua geração é melhor do
que um homem da minha”.
Quem era então Walter? Alguém que gostava de
passar despercebido evitando escrever a título próprio, recorrendo a
personalidades, alheio ao farisaísmo que tinha marcado a existência do pai e do
avô. O ser de Walter estava envolto no mistério – “Era impossível perceber o
que Walter sabia, ou quais os seus pontos de vista[…]”. Se ausente dos
problemas da atualidade era atento a voz das palavras mais vetustas com que
cismava, deslumbrado.
Seria personificação de Cristo, igual a nós,
mas, ao mesmo tempo, tão especial?
“O
homem”
Em “O homem” de Sophia de Mello Breyner
Andersen as raízes bíblicas, tal como numa árvore de grande porte, pareceram-me
profundas, mas salientes à vista.
O “homem” parece identificar-se imediatamente
com Cristo, coarctado na figura do pobre andrajoso que passa despercebido ao
asco humano. Este cristo que leva ao colo um belo menino. Paixão e incarnação
parecem coabitar nesta figura. Na beleza da criança está a expressão do belo
pastor – “[…] levava ao colo uma criança loira, uma daquelas cuja beleza não se
pode descrever.” No corpo do homem pobremente vestido esta Cristo crucificado
desmazelado pelo nosso pecado.
Esta imagem despoleta a atenção de um
transeunte no meio da correria da caterva desinteressada. Tal como no
crucificado encontramos Cristo a olhar para o Céu expectante por um sinal do
Pai numa atitude de “[…] resignação, espanto e pergunta.” As planícies irrelevantes do céu são o sinal
evidente do silêncio de Deus. Tal como os judeus, o transeunte sente-se tentado
a seguir o mesmo caminho da turba multa, tal como no episódio do samaritano
sente-se tentado a passar ao lado como muitos o fizeram. Todavia, desenhou-se a
partir das memórias, dos livros e das fotografias a expressão de consumação:
“Pai, Pai, por que me abandonaste?”.
Num ápice tal como o crucificado, o homem cai
às mãos da morte, “manchado de sangue” e sepultado pelo interesse
desinteressado da multidão dispersa. Porém, o homem como que ressuscitou –“[…]
continua ao nosso lado”.
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