quarta-feira, 5 de dezembro de 2012


“Por que motivo se rebelam os pagãos?”
Imerso no esforço de encontrar o evangelho neste conto deparei-me com um cenário de cores variegadas, um verdadeiro caleidoscópio, onde pareciam estar imbricados múltiplos traços de figuras que de alguma forma estavam presentes no Evangelho.
Intrigado desde logo pelo título “Por que motivo se rebelam os pagãos?” vi esvair-se a esperança da resolução da questão na última página do conto.
Não me deixei intimidar e procurai centrar-me no pedido, a saber, descobrir no texto as fontes bíblicas inspiradoras, numa tentativa de leitura teológica. O aparente protagonismo de Tilman e o hipotético paralelismo com o Cristo sofredor da cruz saíram malogrados pela inversão do protagonismo.
Walter, o filho rebelde surgiu com a luz do centro do palco. Atormentado pela desinquietação da mãe, Walter ferido pela modorra da existência parece agir apaticamente como um inútil, um“pau mandado”: “…vai abrir, a porta!”; “Fecha a porta estás a deixar entrar moscas.” Um filho distante e, por isso, inicialmente imagem adequada do filho pródigo (Lc 15, 11-32)absorto nos seus interesses e alheio a vontade dos pais. Ideia confirmada pela ausência de um lar, de uma casa: “…o filho não tinha lar. Não tinha lar aqui e não tinha lar em lado algum.”
Se por um lado, diante da iminência do compromisso Walter parece esquivar-se, por outro, apresenta-se como aquele que reconhece o valor da sua mãe, do seu potencial subaproveitado. Mary Maud evocou dentro de mim o episódio da mulher adúltera (Jo 8) que viu a sua dignidade ser restituída por Cristo. Assim faz Walter: “Uma mulher da sua geração é melhor do que um homem da minha”.
Quem era então Walter? Alguém que gostava de passar despercebido evitando escrever a título próprio, recorrendo a personalidades, alheio ao farisaísmo que tinha marcado a existência do pai e do avô. O ser de Walter estava envolto no mistério – “Era impossível perceber o que Walter sabia, ou quais os seus pontos de vista[…]”. Se ausente dos problemas da atualidade era atento a voz das palavras mais vetustas com que cismava, deslumbrado.
Seria personificação de Cristo, igual a nós, mas, ao mesmo tempo, tão especial?

“O homem”
Em “O homem” de Sophia de Mello Breyner Andersen as raízes bíblicas, tal como numa árvore de grande porte, pareceram-me profundas, mas salientes à vista.
O “homem” parece identificar-se imediatamente com Cristo, coarctado na figura do pobre andrajoso que passa despercebido ao asco humano. Este cristo que leva ao colo um belo menino. Paixão e incarnação parecem coabitar nesta figura. Na beleza da criança está a expressão do belo pastor – “[…] levava ao colo uma criança loira, uma daquelas cuja beleza não se pode descrever.” No corpo do homem pobremente vestido esta Cristo crucificado desmazelado pelo nosso pecado.
Esta imagem despoleta a atenção de um transeunte no meio da correria da caterva desinteressada. Tal como no crucificado encontramos Cristo a olhar para o Céu expectante por um sinal do Pai numa atitude de “[…] resignação, espanto e pergunta.”  As planícies irrelevantes do céu são o sinal evidente do silêncio de Deus. Tal como os judeus, o transeunte sente-se tentado a seguir o mesmo caminho da turba multa, tal como no episódio do samaritano sente-se tentado a passar ao lado como muitos o fizeram. Todavia, desenhou-se a partir das memórias, dos livros e das fotografias a expressão de consumação: “Pai, Pai, por que me abandonaste?”.
Num ápice tal como o crucificado, o homem cai às mãos da morte, “manchado de sangue” e sepultado pelo interesse desinteressado da multidão dispersa. Porém, o homem como que ressuscitou –“[…] continua ao nosso lado”.

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