quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Leitura teológica de Por que motivo se rebelam os pagãos? de Flannery O’Connor



  Desde o início do texto até que se lança o diálogo entre Walter e sua mãe (pp. 185-186) é-nos apresentado a situação de pano de fundo desafiante para o questionado Walter. Este pano de fundo corresponde ao regresso de Tilman (pai de Walter) a casa depois de um acidente vascular cerebral. A posição de Walter é questionada face a este problema, e é nesta chave de leitura que salto para a minha leitura teológica: a da via sacra, paixão e morte de Jesus. Passo a explicar, no trecho referido, são enunciados temas ou figuras que poderão ser remetidas para a via sacra, paixão e morte de Jesus que será assumido na personagem de Tilman. Este último “tivera o acidente vascular cerebral na capital do estado”, qual Jerusálem onde Jesus dera a sua vida. Mas sucedem-se as imagens: “Não tinha memória do regresso a casa na ambulância, mas a esposa lembrava-se bem. Passara duas horas sentada no assento desdobrável aos pés dele, a olhar fixamente para o seu rosto.” “Não tinha memória” como Jesus morto que é levado para o sepulcro e, por isso, só a esposa (Maria e a Igreja) “lembrava-se bem” guardava memória destes acontecimentos. “Aos pés dele, a olhar fixamente para o seu rosto” sugere-nos a tradição da Sra da Piedade que segura o seu filho nos braços que contempla o seu Filho morto. Também os motivos da cara nos poderão fazer retomar, não só o que se disse com a ajuda do Padre Pedro Boto acerca da cara de Jesus na Pietá de Miguel Angelo, mas também as últimas palavras de Jesus a cruz. “A justiça era coisa cruel e a esposa dava-se por satisfeita quando aquela lhe assistia”: esta é a oração de Maria junto à cruz, quando retoma o “uma espada trespassará a tua alma” e “guardava todas estas coisas em seu coração”.
  Adiantando-me um pouco no texto, insiro aqui o “- Levanta-te, Walter, vai abrir a porta!” como clara inversão do que fizera o Cireneu, mas que não deixa de testemunhar aqui a entrada do desafio na vida de Walter. E nesta linha, inserimos também aqui o “observou, nitidamente fascinado o rosto do seu pai” de alguma maneira afectado pelo acidente não seria fácil encará-lo e esta é uma emblemática imagem usada para ilustrar o rosto sofredor de Jesus.
  Para concluir esta breve reflexão acerca da “via sacra” surge como brincadeira Roosevelt, o escravo que chora por seu patrão sem compreender bem a sua situação de escravo provavelmente, o que nos actualiza a imagem das mulheres de Jerusálem que antes deviam chorar por seus filhos.
  “Talvez esta desgraça fosse o que era preciso para Walter acordar.” Este é o desafio do encontro com Jesus morto e ressuscitado, como presenciamos no exemplo do bom ladrão ou do centurião e para aí se encaminha a continuidade do texto de Flannery O’Connor.

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