Desde o início do texto até que se lança o diálogo entre
Walter e sua mãe (pp. 185-186) é-nos apresentado a situação de pano de fundo
desafiante para o questionado Walter. Este pano de fundo corresponde ao
regresso de Tilman (pai de Walter) a casa depois de um acidente vascular
cerebral. A posição de Walter é questionada face a este problema, e é nesta
chave de leitura que salto para a minha leitura teológica: a da via sacra,
paixão e morte de Jesus. Passo a explicar, no trecho referido, são enunciados
temas ou figuras que poderão ser remetidas para a via sacra, paixão e morte de
Jesus que será assumido na personagem de Tilman. Este último “tivera o acidente
vascular cerebral na capital do estado”, qual Jerusálem onde Jesus dera a sua
vida. Mas sucedem-se as imagens: “Não tinha memória do regresso a casa na
ambulância, mas a esposa lembrava-se bem. Passara duas horas sentada no assento
desdobrável aos pés dele, a olhar fixamente para o seu rosto.” “Não tinha
memória” como Jesus morto que é levado para o sepulcro e, por isso, só a esposa
(Maria e a Igreja) “lembrava-se bem” guardava memória destes acontecimentos. “Aos
pés dele, a olhar fixamente para o seu rosto” sugere-nos a tradição da Sra da
Piedade que segura o seu filho nos braços que contempla o seu Filho morto. Também
os motivos da cara nos poderão fazer retomar, não só o que se disse com a ajuda
do Padre Pedro Boto acerca da cara de Jesus na Pietá de Miguel Angelo, mas
também as últimas palavras de Jesus a cruz. “A justiça era coisa cruel e a
esposa dava-se por satisfeita quando aquela lhe assistia”: esta é a oração de
Maria junto à cruz, quando retoma o “uma espada trespassará a tua alma” e “guardava
todas estas coisas em seu coração”.
Adiantando-me um pouco no texto, insiro aqui o “- Levanta-te,
Walter, vai abrir a porta!” como clara inversão do que fizera o Cireneu, mas
que não deixa de testemunhar aqui a entrada do desafio na vida de Walter. E
nesta linha, inserimos também aqui o “observou, nitidamente fascinado o rosto
do seu pai” de alguma maneira afectado pelo acidente não seria fácil encará-lo
e esta é uma emblemática imagem usada para ilustrar o rosto sofredor de Jesus.
Para concluir esta breve reflexão acerca da “via sacra”
surge como brincadeira Roosevelt, o escravo que chora por seu patrão sem
compreender bem a sua situação de escravo provavelmente, o que nos actualiza a
imagem das mulheres de Jerusálem que antes deviam chorar por seus filhos.
“Talvez esta desgraça fosse o que era preciso para Walter
acordar.” Este é o desafio do encontro com Jesus morto e ressuscitado, como presenciamos
no exemplo do bom ladrão ou do centurião e para aí se encaminha a continuidade
do texto de Flannery O’Connor.
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