quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Sobre Fernando Pessoa
A propósito da minha apresentação de amanhã, e porque o tempo escasseia e que alguns já viram este vídeo numa outra apresentação minha, cá fica um vídeo interessante sobre o meu autor...
quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Leitura teológica de Por que motivo se rebelam os pagãos? de Flannery O’Connor
Desde o início do texto até que se lança o diálogo entre
Walter e sua mãe (pp. 185-186) é-nos apresentado a situação de pano de fundo
desafiante para o questionado Walter. Este pano de fundo corresponde ao
regresso de Tilman (pai de Walter) a casa depois de um acidente vascular
cerebral. A posição de Walter é questionada face a este problema, e é nesta
chave de leitura que salto para a minha leitura teológica: a da via sacra,
paixão e morte de Jesus. Passo a explicar, no trecho referido, são enunciados
temas ou figuras que poderão ser remetidas para a via sacra, paixão e morte de
Jesus que será assumido na personagem de Tilman. Este último “tivera o acidente
vascular cerebral na capital do estado”, qual Jerusálem onde Jesus dera a sua
vida. Mas sucedem-se as imagens: “Não tinha memória do regresso a casa na
ambulância, mas a esposa lembrava-se bem. Passara duas horas sentada no assento
desdobrável aos pés dele, a olhar fixamente para o seu rosto.” “Não tinha
memória” como Jesus morto que é levado para o sepulcro e, por isso, só a esposa
(Maria e a Igreja) “lembrava-se bem” guardava memória destes acontecimentos. “Aos
pés dele, a olhar fixamente para o seu rosto” sugere-nos a tradição da Sra da
Piedade que segura o seu filho nos braços que contempla o seu Filho morto. Também
os motivos da cara nos poderão fazer retomar, não só o que se disse com a ajuda
do Padre Pedro Boto acerca da cara de Jesus na Pietá de Miguel Angelo, mas
também as últimas palavras de Jesus a cruz. “A justiça era coisa cruel e a
esposa dava-se por satisfeita quando aquela lhe assistia”: esta é a oração de
Maria junto à cruz, quando retoma o “uma espada trespassará a tua alma” e “guardava
todas estas coisas em seu coração”.
Adiantando-me um pouco no texto, insiro aqui o “- Levanta-te,
Walter, vai abrir a porta!” como clara inversão do que fizera o Cireneu, mas
que não deixa de testemunhar aqui a entrada do desafio na vida de Walter. E
nesta linha, inserimos também aqui o “observou, nitidamente fascinado o rosto
do seu pai” de alguma maneira afectado pelo acidente não seria fácil encará-lo
e esta é uma emblemática imagem usada para ilustrar o rosto sofredor de Jesus.
Para concluir esta breve reflexão acerca da “via sacra”
surge como brincadeira Roosevelt, o escravo que chora por seu patrão sem
compreender bem a sua situação de escravo provavelmente, o que nos actualiza a
imagem das mulheres de Jerusálem que antes deviam chorar por seus filhos.
“Talvez esta desgraça fosse o que era preciso para Walter
acordar.” Este é o desafio do encontro com Jesus morto e ressuscitado, como presenciamos
no exemplo do bom ladrão ou do centurião e para aí se encaminha a continuidade
do texto de Flannery O’Connor.
Por que motivo se rebelam os pagãos?
Entrar neste conto de Flannery
O´Connor é como entrar num edifício cristão onde as palavras se revelam e nos
permitem olhar aquilo que já conhecemos em outros momentos ou em outras passagens.
A começar pelo olhar ferido com
que olhamos estes momentos dolorosos encontrados na morte e na crucificação de Cristo,
desgraça essa que desperta para o implacável, para o impressionante da vida, surge-nos
um caminho de esperança - o momento de chegar a casa e reencontrar aqueles que
mais amamos e que nos esperam… sentido a forte respiração por um momento especial
que raras vezes acontece nas nossas vidas.
Passando pelos dedos, que marcam
e demarcam a experiência de cada um, como quem marca um parágrafo do livro
quando pára, pensando e dando sentido às palavras que o atravessam, numa busca
desmedida de sentido para explicar todo o momento da paixão.
Os sentimentos fortes que se
sentem num caminho, numa experiência que abre horizontes, que demarca as nossas
faces com lágrimas e que num momento de morte olha, olha para o alto como quem
se entrega por inteiro. E nesta forte experiência o rosto da mãe endurece ainda
mais, o coração aperta, a boca transforma-se em indignação e a cabeça treme,
uma “revelação instantânea de que o filho não tinha lar. Não tinha lar aqui e não
tinha lar em lado algum”.
Este homem, diferente, que se
ocupava de trivialidades, de temas que não faziam sentido, que apresenta um
amor que deve ser “pleno de fúria”, que adverte aqueles que não sabem o que
fazem na casa de seu pai, daí que se apresente como um general - que julga os
vivos e os mortos, denominado de Jesus.
Antonino Gomes de Sousa
“Por
que motivo se rebelam os pagãos?”
Imerso no esforço de encontrar o evangelho neste
conto deparei-me com um cenário de cores variegadas, um verdadeiro
caleidoscópio, onde pareciam estar imbricados múltiplos traços de figuras que
de alguma forma estavam presentes no Evangelho.
Intrigado desde logo pelo título “Por que
motivo se rebelam os pagãos?” vi esvair-se a esperança da resolução da questão na
última página do conto.
Não me deixei intimidar e procurai centrar-me
no pedido, a saber, descobrir no texto as fontes bíblicas inspiradoras, numa
tentativa de leitura teológica. O aparente protagonismo de Tilman e o
hipotético paralelismo com o Cristo sofredor da cruz saíram malogrados pela
inversão do protagonismo.
Walter, o filho rebelde surgiu com a luz do
centro do palco. Atormentado pela desinquietação da mãe, Walter ferido pela
modorra da existência parece agir apaticamente como um inútil, um“pau mandado”:
“…vai abrir, a porta!”; “Fecha a porta estás a deixar entrar moscas.” Um filho
distante e, por isso, inicialmente imagem adequada do filho pródigo (Lc 15, 11-32)absorto nos seus interesses e alheio a
vontade dos pais. Ideia confirmada pela ausência de um lar, de uma casa: “…o
filho não tinha lar. Não tinha lar aqui e não tinha lar em lado algum.”
Se por um lado, diante da iminência do
compromisso Walter parece esquivar-se, por outro, apresenta-se como aquele que
reconhece o valor da sua mãe, do seu potencial subaproveitado. Mary Maud evocou
dentro de mim o episódio da mulher adúltera (Jo 8) que viu a sua dignidade ser
restituída por Cristo. Assim faz Walter: “Uma mulher da sua geração é melhor do
que um homem da minha”.
Quem era então Walter? Alguém que gostava de
passar despercebido evitando escrever a título próprio, recorrendo a
personalidades, alheio ao farisaísmo que tinha marcado a existência do pai e do
avô. O ser de Walter estava envolto no mistério – “Era impossível perceber o
que Walter sabia, ou quais os seus pontos de vista[…]”. Se ausente dos
problemas da atualidade era atento a voz das palavras mais vetustas com que
cismava, deslumbrado.
Seria personificação de Cristo, igual a nós,
mas, ao mesmo tempo, tão especial?
“O
homem”
Em “O homem” de Sophia de Mello Breyner
Andersen as raízes bíblicas, tal como numa árvore de grande porte, pareceram-me
profundas, mas salientes à vista.
O “homem” parece identificar-se imediatamente
com Cristo, coarctado na figura do pobre andrajoso que passa despercebido ao
asco humano. Este cristo que leva ao colo um belo menino. Paixão e incarnação
parecem coabitar nesta figura. Na beleza da criança está a expressão do belo
pastor – “[…] levava ao colo uma criança loira, uma daquelas cuja beleza não se
pode descrever.” No corpo do homem pobremente vestido esta Cristo crucificado
desmazelado pelo nosso pecado.
Esta imagem despoleta a atenção de um
transeunte no meio da correria da caterva desinteressada. Tal como no
crucificado encontramos Cristo a olhar para o Céu expectante por um sinal do
Pai numa atitude de “[…] resignação, espanto e pergunta.” As planícies irrelevantes do céu são o sinal
evidente do silêncio de Deus. Tal como os judeus, o transeunte sente-se tentado
a seguir o mesmo caminho da turba multa, tal como no episódio do samaritano
sente-se tentado a passar ao lado como muitos o fizeram. Todavia, desenhou-se a
partir das memórias, dos livros e das fotografias a expressão de consumação:
“Pai, Pai, por que me abandonaste?”.
Num ápice tal como o crucificado, o homem cai
às mãos da morte, “manchado de sangue” e sepultado pelo interesse
desinteressado da multidão dispersa. Porém, o homem como que ressuscitou –“[…]
continua ao nosso lado”.
Sophia de Mello Breyner Anderson- O Homem
O conto de Sophia sublinha, repetindo pelo menos por três vezes, o homem que caminha: “muito devagar” (…) “lentamente, muito lentamente” (…)”caminhava muito devagar”. A reportar à caminhada do homem, sobre a terra, ele é muito lento a dar a vida; o homem faz resistência a dar-se e a dar-se totalmente a Deus, por isso, caminha muito devagar. Jesus carregou a cruz para dar a vida, não fez resistência. Fil 2,8 “Aparecendo como homem, humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz”.
Por várias vezes, também encontramos no texto a alusão ao céu, ao olhar para o céu como: um lugar de silêncio, frio, lugar de onde se espera uma resposta. O homem anda na terra mas caminha para o céu, onde está Deus. Anseia pela morada eterna. Salmo 121,2 “Elevo os meus olhos para os montes de onde me virá o auxílio o meu auxílio vem do senhor que fez o céu e a terra “. Este homem pobre, miserável que nos fala o conto e que ninguém repara é Jesus, na sua paixão todos olham mas ninguém vê o mistério de amor, como que há uma indiferença, como hoje estamos indiferentes, acomodados e Deus, praticamente não conta, não lhe damos importância. O conto acaba afirmando que mesmo assim, e apesar de tudo isto, o homem (Deus) continua ao nosso lado, diríamos do nosso lado.
Por isso, o caminhar deve ser o mais longe que se pode ir…
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
Uma perspectiva do conto "Por que motivo se rebelam os pagãos?"
No conto "Por que motivo se rebelam os pagãos?" de Flannery O'Connor, procurarei abordar brevemente a relação entre a mãe e o filho, Walter. A mãe sofre com o filho. Julga tê-lo perdido. Teme já não o conhecer. Esta relação entre mãe e filho traz-me à memória a perda e reencontro de Jesus no Templo entre os Doutores. Também aí, ao encontrar Jesus, Sua Mãe pergunta: “Filho, porque procedeste assim connosco? Não sabias que Teu pai e eu andávamos aflitos à Tua procura?” (Lc 2, 41-52). A comparação entre estas duas Mães e estes dois Filhos é certamente arriscada, mas poder-se-á desenvolver.
De facto, há alguns pontos de contacto entre a Mãe e Nossa Senhora: de Nossa Senhora, sabemos que “guardava todas as coisas em seu coração”, isto é, todos os acontecimentos que contemplava eram meditados em silêncio, não entendendo tudo mas aceitando e procurando compreender os desígnios de Deus. Inclusivamente, no episódio da perda do Jesus no templo, Maria apercebe-se de que o Filho reencontrado, embora submisso, está diferente. De forma semelhante, sabemos neste conto que “o coração da mãe apertou-se” (pág. 188), ao ouvir a resposta de Walter. Igualmente ficou gravado no seu espírito aquela passagem que encontrara no chão da casa de banho. Este coração da mãe que acolhe os acontecimentos, que se gravam no seu espírito, é um coração mariano, inquieto perante a vida do filho.
Também há algum paralelismo entre Walter e Jesus. Walter diz: “Julgava que estava na minha casa (pág. 188)”. Jesus respondeu aos seus pais, quando estes O encontraram no templo: “Porque me procuráveis? Não sabíeis que devia estar na casa de Meu Pai?”. A referência à casa, ao próprio lugar, o caminho rumo à descoberta de si mesmo, é comum entre Jesus e Walter.
Por outro lado, como exemplo duma possível contra-argumentação, poder-se-ia alegar que Walter “tinha ar de quem aguarda um grande acontecimento e não deita mãos a obra nenhuma” e Jesus, pelo contrário, na sua vida oculta trabalhou com seu pai, S. José, não caindo na ociosidade.
Certamente muito mais se poderia dizer, mas ficarei por aqui, até porque não é esse o objectivo deste comentário.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
RIFÃO QUOTIDIANO (com video, clicar)
Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece
Mário Henrique Leiria
Para já é o que digo. Veio me à cabeça durante a aula. Penso ter o seu propósito. Prometo para breve uma reflexão.
Miguel Ângelo
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece
Mário Henrique Leiria
Para já é o que digo. Veio me à cabeça durante a aula. Penso ter o seu propósito. Prometo para breve uma reflexão.
Miguel Ângelo
O despertar
Quando alguém se reveste de superioridade moral, julga ter em si as razões demais evidentes, para chamar a atenção dos outros e os acordar do erro em que se encontram. A pessoa em causa age como se ouvisse apenas as palavras que quer ouvir, tudo se torna indício confirmando a sua posição
No conto "Por que motivo se rebelam os pagãos?" de Flannery O'Connor, a Mãe de Walter e de Mary Maud, a qual o nome não é referido ao longo do conto, parecer ser o elemento que procura despertar o seu filho, Walter, da letargia. É curioso notar, que naquilo para o qual a Mãe parece surgir, é precisamente aí que acaba por falhar. Considerando o sentido inicial do texto, é desejado por todos, até pelo leitor, de que Walter acorde, mas então porque será que Walter não acorda? Será que a Mãe falha enquanto personagem para aquilo que foi criada?
Em nosso entender, a Mãe falha, porque no conto a sua finalidade não é acordar o filho. O filho está acordado!
Uma das frases que mais me chamou a atenção no conto, foi a seguinte: «É bom tornar a vê-lo Capitão.» A razão de ser desta frase pode ser a de que Tilman esteve de facto na guerra e foi capitão, mas essa seria uma explicação preguiçosa. Um pouco mais à frente encontramos no interior de uma citação,uma referência igualmente militarizada : «Que fazeis vós na casa de vosso pai, oh soldado efeminado?». O facto de que Walter sublinhou esta citação, que sua mãe posteriormente encontrou, é sinal de que esta passagem do livro não lhe tinha passado despercebida. Walter sabe que é o soldado efeminado que habita na casa de seu pai.
A acção do conto ao deixar Walter, recentra-se na Mãe, esta anseia por despertar seu filho, por lhe impor uma máscara, um papel que ele terá de representar, tal como a sua filha Mary Maud desempenha na perfeição o papel de professora.
O conto termina da seguinte forma: «Foi então que lhe ocorreu, com um pequeno sobressalto desagradável, que o General com a espada na boca, em marcha para espalhar a violência, era Jesus.» A Mãe tendo todas as boas razões do mundo para acordar Walter, acaba por ser ela despertada dos seus ídolos preconcebidos. É a Mãe que parecendo ser a personagem que chama à razão Walter, será agora acordada. O filho, sendo pedra de tropeço, faz despertar a sua Mãe. Esta descobre que é Jesus Cristo o grande general, aquele que avança e que muito possívelmente, governa a vida do seu filho.
Em conclusão, todo o conto parece fazer referência, em nosso entender, à passagem do Evangelho S. Mateus: «Porque reparas no argueiro que está na vista do teu irmão, e não vês a trave que está na tua vista? Como ousas dizer ao teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro da tua vista, tendo tu uma trave na tua? Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista e, então verás melhor para tirar o argueiro da vista do teu irmão». Mt 7, 3-5
No conto "Por que motivo se rebelam os pagãos?" de Flannery O'Connor, a Mãe de Walter e de Mary Maud, a qual o nome não é referido ao longo do conto, parecer ser o elemento que procura despertar o seu filho, Walter, da letargia. É curioso notar, que naquilo para o qual a Mãe parece surgir, é precisamente aí que acaba por falhar. Considerando o sentido inicial do texto, é desejado por todos, até pelo leitor, de que Walter acorde, mas então porque será que Walter não acorda? Será que a Mãe falha enquanto personagem para aquilo que foi criada?
Em nosso entender, a Mãe falha, porque no conto a sua finalidade não é acordar o filho. O filho está acordado!
Uma das frases que mais me chamou a atenção no conto, foi a seguinte: «É bom tornar a vê-lo Capitão.» A razão de ser desta frase pode ser a de que Tilman esteve de facto na guerra e foi capitão, mas essa seria uma explicação preguiçosa. Um pouco mais à frente encontramos no interior de uma citação,uma referência igualmente militarizada : «Que fazeis vós na casa de vosso pai, oh soldado efeminado?». O facto de que Walter sublinhou esta citação, que sua mãe posteriormente encontrou, é sinal de que esta passagem do livro não lhe tinha passado despercebida. Walter sabe que é o soldado efeminado que habita na casa de seu pai.
A acção do conto ao deixar Walter, recentra-se na Mãe, esta anseia por despertar seu filho, por lhe impor uma máscara, um papel que ele terá de representar, tal como a sua filha Mary Maud desempenha na perfeição o papel de professora.
O conto termina da seguinte forma: «Foi então que lhe ocorreu, com um pequeno sobressalto desagradável, que o General com a espada na boca, em marcha para espalhar a violência, era Jesus.» A Mãe tendo todas as boas razões do mundo para acordar Walter, acaba por ser ela despertada dos seus ídolos preconcebidos. É a Mãe que parecendo ser a personagem que chama à razão Walter, será agora acordada. O filho, sendo pedra de tropeço, faz despertar a sua Mãe. Esta descobre que é Jesus Cristo o grande general, aquele que avança e que muito possívelmente, governa a vida do seu filho.
Em conclusão, todo o conto parece fazer referência, em nosso entender, à passagem do Evangelho S. Mateus: «Porque reparas no argueiro que está na vista do teu irmão, e não vês a trave que está na tua vista? Como ousas dizer ao teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro da tua vista, tendo tu uma trave na tua? Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista e, então verás melhor para tirar o argueiro da vista do teu irmão». Mt 7, 3-5
Sinopse de " O Homem"
Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo
Eis a sua Igreja, criança que chora
Eis que tirariam o pecado, se eu deixasse
Eis que me esqueço, confesso
Eis a sua Igreja, criança que chora
Eis que tirariam o pecado, se eu deixasse
Eis que me esqueço, confesso
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Subir contra a corrente do rio da multidão...
“O Homem” – Sophia de Mello Breyner Andersen
Neste conto de Sophia de Mello Breyner, fiquei logo com a imagem da Paixão de Cristo, “Intimamente o meu olhar ficou preso um momento na cara da criança” a criança que vai ao colo de um homem pobremente vestido, com um ar destroçado, esse homem é para mim Jesus Cristo que carrega a criança, que é a Cruz, que simboliza a vida que é a beleza que faz com que o olhar fique preso, nem que seja por instantes.
Ela que, acabou por ficar presa na cara do homem que levava a criança, deixa-se mergulhar e segui-o como as mulheres que seguiam Jesus a caminho do Calvário, “Jesus voltou-se para elas e disse-lhes: «Filhas de Jerusalém, não choreis por mim, chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos”(Lc. 23, 28), no meio de “Rios de gente passavam sem o ver”.
Ela que, acabou por ficar presa na cara do homem que levava a criança, deixa-se mergulhar e segui-o como as mulheres que seguiam Jesus a caminho do Calvário, “Jesus voltou-se para elas e disse-lhes: «Filhas de Jerusalém, não choreis por mim, chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos”(Lc. 23, 28), no meio de “Rios de gente passavam sem o ver”.
E quando sobe contra a corrente do rio da multidão, tentando encontrar aquele olhar que a tenha deixa fixa a si, que lhe deu forças para lutar contra a corrente do rio, eis que o encontra “Tinha parado, mas continuava a segurar a criança e a olhar para o céu. Corri, empurrando quase as pessoas…o homem caiu no chão” é quando se dá a morte de Cristo, “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito. Dizendo isso, expirou.” (Lc. 23, 46). Depois da morte, Jesus é levado para o sepulcro e no texto é representado pela multidão que parou e formou um círculo à volta do homem - homens altos que impediam de ver aquele que tinha caído por terra, aquele que tinha morrido, mas que havia vencido a morte. A morte é vencida, pois quando o círculo se abriu, quando o túmulo é aberto, “o homem e a criança tinham desaparecido” - "Encontraram a pedra do túmulo removida, mas, ao entrar, não encontraram o corpo do Senhor Jesus" (Lc.24, 2-3), é a Ressurreição…
E neste momento ou se segue na corrente do rio “caminhando para a frente, levada pelo movimento da cidade" ou se acredita que Cristo Ressuscitou verdadeiramente e o “O homem certamente morreu. Mas continua ao nosso lado. Pelas ruas”
Breyner vs Agostinho
v “Rapidamente
evoquei todos os lugares onde eu tinha vivido. Desenrolei para trás o filme do
tempo. As imagens oscilantes, um pouco trémulas e rápidas. Mas não encontrei
nada. E tentei reunir e rever todas as memórias de quadros, de livros, de fotografias
(…). E do fundo da memória, trazidas pela imagem, muito devagar, uma por uma,
inconfundíveis, apareceram as palavras: Pai, Pai, por que me abandonaste?” (Sophia de Mello Breyner Andresen – Contos
Exemplares, pp. 158-159).
Ø “Ao
recordar de ti, ultrapassei as regiões da memória que também os animais
possuem, porque aí, entre as imagens dos seres corpóreos, eu não te encontrava.
Passei às regiões onde depositei os sentimentos do espírito, e nem mesmo aí te
encontrei”. (Santo Agostinho –
Confissões: Lugar de Deus na memória, Livro X, 25, p. 294).
v “Voltei
para trás. Subi contra a corrente o rio da multidão. Temi tê-lo perdido (…). Corri,
empurrando quase as pessoas. Estava já a dois passos dele. Mas nesse momento,
exactamente, o homem caiu no chão (…). Eu estava de lado fora do círculo. Tentei
atravessá-lo, mas não consegui (…). Muitos anos passaram. O homem certamente morreu.
Mas continua ao nosso lado. Pelas ruas”. (Sophia
de Mello Breyner Andresen – Contos Exemplares, pp. 160-161).
Ø “Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão
nova! Tarde demais te amei! Eis que habitavas dentro de mim, e eu te procurava
do lado de fora! Estavas comigo, mas eu não estava contigo (…). Tu me chamaste,
e teu grito rompeu a minha surdez (…). Eu te saboreei, e agora tenho fome e
sede de ti”.
(Santo Agostinho – Confissões: “Tarde te
amei!...”, Livro X, 27, p. 295).
O silêncio de Deus e o silêncio do homem
O
SILÊNCIO DE DEUS E O SILÊNCIO DO HOMEM
Charles
Mceller, na introdução do seu livro Literatura
do século XX e Cristianismo I, expressa nitidamente o silêncio de Deus da
seguinte forma:
“Num certo
sentido, Deus fala-nos sem cessar. Noutro sentido, cala-se. Embora conheçamos o
desígnio geral da sua providência, ignoramos tudo quanto aos seus intentos
particulares. Abandonar-nos à fé é, portanto, a nossa única atitude cristã. […]
A consciência da aparente ausência de Deus no mundo. […] O custo de vida
aumenta sem parar. Silêncio de Deus, outra frase para traduzir o absurdo do
universo. Será o homem uma paixão inútil?”[1].
A
ausência de Deus torna-se uma questão inevitável. A busca de encontrar resposta
a situações tremendas que o homem enfrenta, de quando em vez levanta questões.
Deus que é a última esperança não dá resposta directamente. Deus cala-se ou
Deus está longe de nós? - como diz o cantor famoso da Indonésia, Ebied G. Ade.
O silêncio de Deus é uma temática
marcante na literatura. O conto – o Homem
- de Sophia de Mello Breyner Andresen levanta também esta questão. “O homem
pobre levantou a cabeça para o céu. […] Era um céu alto, sem resposta, cor de
frio. O homem levantou a cabeça no gesto de alguém que, tendo ultrapassado um
limite, já nada tem para dar e se volta para fora procurando uma resposta. Com
a cabeça levantada, olhava o céu. Mas o céu eram planícies e planícies de
silêncio”. Deus
não dá resposta ao pedido do homem pobre.
O narrador manifesta também o silêncio
do homem. Esta perspectiva está bem patente. O narrador diz: “A multidão não
parava de passar. Era o centro do centro da cidade. O homem estava sozinho,
sozinho. Rios de gente passavam sem o ver”. A resposta e a ajuda da multidão –
outros personagens - vinham muito tarde, quando o homem pobre já tinha caído no
chão. “ […] O homem caiu no chão. Da sua boca corria um rio de sangue. […]
Então, a multidão parou e formou um círculo à volta do homem. Ombros mais fortes
do que os meus empurraram-me para trás”.
O
homem do nosso tempo preocupa-se mais com a sua situação individual, o que leva
a não se interessar pelo seu irmão necessitado. O homem fecha-se em si mesmo.
Então, não só há o silêncio de Deus, mas também o silêncio do homem.
[1] Charles Mceller, Literatura do século XX e Cristianismo I, trad.
Augusto Sousa, São Paulo, Editora Flamboyant, 1958, pp. 11-12.
O Confronto
A Carta a Diogneto diz-nos: o cristão vive no mundo, mas não é deste mundo. Onde o cristão habita parece existir uma planta fora do sítio, é como uma mancha vermelha num filme a preto e branco. Ao ler o conto de Flannery O'Connor - "Por que motivo se rebelam os pagãos?" e o conto de Sophia de Mello Breyner "O Homem" vislumbro um lugar comum paralelo: o confronto.
O cristão confronta o mundo, ao pôr em causa as falsas imagens, as máscaras e comodismos. O cristão é como uma nódoa no meio da toalha, atrai as atenções para si, mas no fundo não é por causa de si que as atrai. Este pára e vê o mundo com um olhar diferente, com uma novidade própria daquele que não irradia nada por si mesmo, mas reflecte a luz que não é sua.
O cristão confronta o mundo, ao pôr em causa as falsas imagens, as máscaras e comodismos. O cristão é como uma nódoa no meio da toalha, atrai as atenções para si, mas no fundo não é por causa de si que as atrai. Este pára e vê o mundo com um olhar diferente, com uma novidade própria daquele que não irradia nada por si mesmo, mas reflecte a luz que não é sua.
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Jesus dinamitador
Pum!
Olha lá, pondé que vais?
Tu fumas o quê?
Tá quieto pá!
Caneco!
Pum!
Oh! Tás parvo?
Ó meu, psssss, chega-t’aqui!
Idiota larga isso…
Caneco!
Pum!
Trolha!
É mesmo chico esperto…
Tás todo frito.
Ai o caneco!
Pim, Pim, Pim…
Da autoria de Rodrigo Luís Santos Alves
Da autoria de Rodrigo Luís Santos Alves
Daniel Faria
Bastante contemporâneo, Daniel Augusto da Cunha Faria nasceu
em Baltar, Paredes, a 10 de Abril de 1971 e veio a falecer a 9 de Junho de 1999
quando estava prestes a concluir o noviciado no Mosteiro Beneditino de
Singeverga. Foi estudante em dois cursos, a saber: Estudos Portugueses na
faculdade de Letras da Universidade do Porto e o curso de Teologia na Universidade
Católica Portuguesa no Porto, concluído em 1996 com a defesa de tese de
licenciatura.
Teve experiências enquanto encenador nas peças As Artimanhas de Scapan e o Auto da Barca do Inferno. Escrevendo,
publicou obras como Oxálida e A Casa dos Ceifeiros (durante o curso de
Teologia). Pelo auxílio da Fundação Manuel Leão publicou ainda Explicação das árvores e de outros animais;
Homens que são como lugares mal situados
Explicação das árvores e de outros animais; Dos Líquidos.
Especial agradecimento a Bernardo Trocado por me permitir publicar.
Rodrigo Luís Santos Alves
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
Explosão de cor
José foi despedido
O ilustre carpinteiro
De suor escorrido
De trabalhar o dia inteiro
Um convite na brincadeira
E lá andava
Na fábrica de pirotecnia
Já trabalhava
Tantos foguetes queimou
Sem uma mão ficou
A esperança não o desanimou
Pois uma luz o guiou
José, com a ajuda do Espírito Santo
Todo o Espectáculo Pirotécnico preparou
Maria deu à luz
E o Fogo de Artificio disparou!
O ilustre carpinteiro
De suor escorrido
De trabalhar o dia inteiro
Um convite na brincadeira
E lá andava
Na fábrica de pirotecnia
Já trabalhava
Tantos foguetes queimou
Sem uma mão ficou
A esperança não o desanimou
Pois uma luz o guiou
José, com a ajuda do Espírito Santo
Todo o Espectáculo Pirotécnico preparou
Maria deu à luz
E o Fogo de Artificio disparou!
João Carlos Ganhão
Eduardo Lourenço de Faria
Eduardo
Lourenço de Faria é um ensaísta português. Nasceu no distrito da Guarda em 1923.
É um dos críticos mais notáveis da Cultura e Literatura Portuguesas[1]. É
um grande intérprete da identidade portuguesa. Dá a conhecer o seu Portugal ao mundo
internacional pela sua contribuição literária. As suas obras abrem os olhos e
horizontes acerca daquilo que “fomos, somos e seremos”[2].
De
todas as obras marcantes apresenta-se apenas a Heterodoxia I (1949) sendo a primeira obra do ensaísta e a Heterodoxia II (1967). Na Heterodoxia I, o ensaísta afirma o seu
conceito de heterodoxia da seguinte forma: “A heterodoxia é a consciência
absoluta da pluralidade histórica das ortodoxias. […] No plano do conhecer ou no plano do agir, na filosofia ou na
política, o homem é uma realidade dividida. O respeito pela sua divisão é
Heterodoxia”[3]. E na Heterodoxia II, o ensaísta continua a explicar a respeito do
conceito heterodoxia. Nesse segundo prólogo,
o ensaísta manifesta uma importância decisiva do destino do seu livro[4].
As
suas obras inscritas no coração do povo português e no mundo levam-no a ganhar
prémios. Eis os prémios que se apresenta: em 1988, recebeu o prémio Europeu do
Ensaio “Charles Veillon”; em 2001, o prémio Vergílio Ferreira e no mesmo ano a
medalha de Ouro da cidade de Coimbra. Em 2006, o ensaísta recebeu o prémio
Extremadura para a Criação. Em 2009, recebeu a “Encomienda de Numero de la
Ordem del Mérito Civil” pelo Rei de Espanha; e em 2011, o prémio Pessoa.
[1] Cf. José Rui da Costa Azevedo, Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa, a
Alma Portuguesa e o seu Drama, Braga, 2007, p. 7. [Tese].
[2]Cf. José Rui da Costa Azevedo, Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa, a
Alma Portuguesa e o seu Drama, p. 7.
[3] Eduardo Lourenço, Heterodoxia I, Lisboa, Gradiva, 2005, pp.
15-16.
[4]Cf. João Tiago Pedroso de Lima, em
http://dspace.uevora.pt/rdpc/bitstream/10174/4828/1/Heterodoxias%20ou%20uma%20deser%C3%A7%C3%A3o%20sem%20fim.pdf, foi consultado no dia 13 de
Novembro de 2012.
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