quarta-feira, 28 de novembro de 2012


Breyner vs  Agostinho

v  “Rapidamente evoquei todos os lugares onde eu tinha vivido. Desenrolei para trás o filme do tempo. As imagens oscilantes, um pouco trémulas e rápidas. Mas não encontrei nada. E tentei reunir e rever todas as memórias de quadros, de livros, de fotografias (…). E do fundo da memória, trazidas pela imagem, muito devagar, uma por uma, inconfundíveis, apareceram as palavras: Pai, Pai, por que me abandonaste?” (Sophia de Mello Breyner Andresen – Contos Exemplares, pp. 158-159).

Ø  “Ao recordar de ti, ultrapassei as regiões da memória que também os animais possuem, porque aí, entre as imagens dos seres corpóreos, eu não te encontrava. Passei às regiões onde depositei os sentimentos do espírito, e nem mesmo aí te encontrei”. (Santo Agostinho – Confissões: Lugar de Deus na memória, Livro X, 25, p. 294).

v  “Voltei para trás. Subi contra a corrente o rio da multidão. Temi tê-lo perdido (…). Corri, empurrando quase as pessoas. Estava já a dois passos dele. Mas nesse momento, exactamente, o homem caiu no chão (…). Eu estava de lado fora do círculo. Tentei atravessá-lo, mas não consegui (…). Muitos anos passaram. O homem certamente morreu. Mas continua ao nosso lado. Pelas ruas”. (Sophia de Mello Breyner Andresen – Contos Exemplares, pp. 160-161).

Ø  “Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais te amei! Eis que habitavas dentro de mim, e eu te procurava do lado de fora! Estavas comigo, mas eu não estava contigo (…). Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez (…). Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti”. (Santo Agostinho – Confissões: “Tarde te amei!...”, Livro X, 27, p. 295).

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