quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O silêncio de Deus e o silêncio do homem


O SILÊNCIO DE DEUS E O SILÊNCIO DO HOMEM

Charles Mceller, na introdução do seu livro Literatura do século XX e Cristianismo I, expressa nitidamente o silêncio de Deus da seguinte forma:
“Num certo sentido, Deus fala-nos sem cessar. Noutro sentido, cala-se. Embora conheçamos o desígnio geral da sua providência, ignoramos tudo quanto aos seus intentos particulares. Abandonar-nos à fé é, portanto, a nossa única atitude cristã. […] A consciência da aparente ausência de Deus no mundo. […] O custo de vida aumenta sem parar. Silêncio de Deus, outra frase para traduzir o absurdo do universo. Será o homem uma paixão inútil?”[1].
A ausência de Deus torna-se uma questão inevitável. A busca de encontrar resposta a situações tremendas que o homem enfrenta, de quando em vez levanta questões. Deus que é a última esperança não dá resposta directamente. Deus cala-se ou Deus está longe de nós? - como diz o cantor famoso da Indonésia, Ebied G. Ade.
            O silêncio de Deus é uma temática marcante na literatura. O conto – o Homem - de Sophia de Mello Breyner Andresen levanta também esta questão. “O homem pobre levantou a cabeça para o céu. […] Era um céu alto, sem resposta, cor de frio. O homem levantou a cabeça no gesto de alguém que, tendo ultrapassado um limite, já nada tem para dar e se volta para fora procurando uma resposta. Com a cabeça levantada, olhava o céu. Mas o céu eram planícies e planícies de silêncio”. Deus não dá resposta ao pedido do homem pobre.
            O narrador manifesta também o silêncio do homem. Esta perspectiva está bem patente. O narrador diz: “A multidão não parava de passar. Era o centro do centro da cidade. O homem estava sozinho, sozinho. Rios de gente passavam sem o ver”. A resposta e a ajuda da multidão – outros personagens - vinham muito tarde, quando o homem pobre já tinha caído no chão. “ […] O homem caiu no chão. Da sua boca corria um rio de sangue. […] Então, a multidão parou e formou um círculo à volta do homem. Ombros mais fortes do que os meus empurraram-me para trás”.
O homem do nosso tempo preocupa-se mais com a sua situação individual, o que leva a não se interessar pelo seu irmão necessitado. O homem fecha-se em si mesmo. Então, não só há o silêncio de Deus, mas também o silêncio do homem.


[1] Charles Mceller, Literatura do século XX e Cristianismo I, trad. Augusto Sousa, São Paulo, Editora Flamboyant, 1958, pp. 11-12.

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