O
SILÊNCIO DE DEUS E O SILÊNCIO DO HOMEM
Charles
Mceller, na introdução do seu livro Literatura
do século XX e Cristianismo I, expressa nitidamente o silêncio de Deus da
seguinte forma:
“Num certo
sentido, Deus fala-nos sem cessar. Noutro sentido, cala-se. Embora conheçamos o
desígnio geral da sua providência, ignoramos tudo quanto aos seus intentos
particulares. Abandonar-nos à fé é, portanto, a nossa única atitude cristã. […]
A consciência da aparente ausência de Deus no mundo. […] O custo de vida
aumenta sem parar. Silêncio de Deus, outra frase para traduzir o absurdo do
universo. Será o homem uma paixão inútil?”[1].
A
ausência de Deus torna-se uma questão inevitável. A busca de encontrar resposta
a situações tremendas que o homem enfrenta, de quando em vez levanta questões.
Deus que é a última esperança não dá resposta directamente. Deus cala-se ou
Deus está longe de nós? - como diz o cantor famoso da Indonésia, Ebied G. Ade.
O silêncio de Deus é uma temática
marcante na literatura. O conto – o Homem
- de Sophia de Mello Breyner Andresen levanta também esta questão. “O homem
pobre levantou a cabeça para o céu. […] Era um céu alto, sem resposta, cor de
frio. O homem levantou a cabeça no gesto de alguém que, tendo ultrapassado um
limite, já nada tem para dar e se volta para fora procurando uma resposta. Com
a cabeça levantada, olhava o céu. Mas o céu eram planícies e planícies de
silêncio”. Deus
não dá resposta ao pedido do homem pobre.
O narrador manifesta também o silêncio
do homem. Esta perspectiva está bem patente. O narrador diz: “A multidão não
parava de passar. Era o centro do centro da cidade. O homem estava sozinho,
sozinho. Rios de gente passavam sem o ver”. A resposta e a ajuda da multidão –
outros personagens - vinham muito tarde, quando o homem pobre já tinha caído no
chão. “ […] O homem caiu no chão. Da sua boca corria um rio de sangue. […]
Então, a multidão parou e formou um círculo à volta do homem. Ombros mais fortes
do que os meus empurraram-me para trás”.
O
homem do nosso tempo preocupa-se mais com a sua situação individual, o que leva
a não se interessar pelo seu irmão necessitado. O homem fecha-se em si mesmo.
Então, não só há o silêncio de Deus, mas também o silêncio do homem.
[1] Charles Mceller, Literatura do século XX e Cristianismo I, trad.
Augusto Sousa, São Paulo, Editora Flamboyant, 1958, pp. 11-12.
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