terça-feira, 22 de janeiro de 2013

José Augusto Mourão


VIDA
- Nasce em Lordelo (Vila Real) em 1947 e morre em Lisboa a 5 de Maio de 2011
- Ocupação principal: ensino e escrita
- Passa a maior parte do seu tempo em diálogo com estes dois mundos: como frade dominicano e entre os universitários
- É atraído pela linguagem e pela questão da palavra | ocupa-se com o ensino e a escrita
- Professor Associado com Agregação no Departamento de Ciências da Comunicação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa
- Homem íntegro, tímido, discreto, de poucas palavras, um trabalhador infatigável e intenso em todas as áreas que estudou, pregou e ensinou
- Escrevia tudo o que investigava, tudo o que ensinava, todas as suas homilias, ensaios, poemas… obra densa e profunda
- Desenvolveu um especial gosto litúrgico - lugar de reflexão e de partilha | incentivo para ligarmos o corpo com a liturgia | alegria e beleza dos cânticos | qualidade das palavras expressadas na homilia
- Quem contactou com ele assistiu a um homem que imediatamente se oferece como dom a quem dele se aproxima
- Passou a vida a estudar, a questionar, a interrogar-se | acreditou e deu exemplo da força da palavra, da procura da palavra

OBRA - VAZIO VERDE
- O Vazio, na sua poesia, é trespassada pela esperança e pela procura de Deus;
- “A inspiração bíblica é uma constante dos seus versos onde o jogo das palavras é um jogo de investigação permanente, uma constante descoberta de novas formas bíblicas, como quem edifica novos salmos para os orantes do futuro” (Excerto de um texto de C.F. publicado no Jornal Voz Portucalense | 11.05.2011)
- Caminho, travessia, busca desmedida de alguma coisa
- O Vazio é o despojamento para encontrar o caminho
- Corpo como escuta e desejo - na procura do doce da vida
- Eucaristia e liturgia como um caminho de encontro com Deus
- Poesia - força das metáforas
- “A liturgia inscreve-nos numa visualidade específica, num tacto e num sabor. Inicia-nos na efusão sagrada dos aromas. E é, plenamente, audição” (José Tolentino Mendonça, apresentação do Nome e a Forma)

sábado, 19 de janeiro de 2013


Nuno Bragança
O livro, intitulado com o nome, “noite e o riso” surge em 1969 e constitui uma nova novidade literária pelo desafio que faz ao modo de construção de uma narrativa tradicional.
Um tríptico, na pintura, é um conjunto de 3 painéis, um central e dois laterais com temática, em geral, relacionado com o central.
O escritor evidência, nos seus textos ideias, tais como: a literatura e a busca de uma sociedade mais justa. Ideias sempre nortadas por uma visão cristã do mundo (visão sempre muito destacada), entendendo os valores cristãos com pilares da justiça, que repudiam a repressão e o ódio. O seu texto funciona como grito interior, sendo o despertar de uma inquietação. Ora, a hora esta dividida em três Painéis.

I-Painel
Este primeiro Painel, expressão singular, “criada embora entre hábitos de faisão”, cedo me especializou na arte de estender os braços”, aludindo aqui a infância do eu/narrador, vivido no seio de uma família aristocrata, que renuncia à cultura artística, cujas regras conduzem a um percurso de romper. A necessária e urgente, transmitir essa inquietação vivida que entusiasma o narrador.
Na análise que faz as relações Família-Criança, Nuno Bragança põem em questão todo o processo educacional estabelecido no seu tempo que é baseado na competição e não na cooperação. O desajustamento da criança com as regras que são instituídas e a imposição dessas normas são motivo de um sarcasmo e de troça cruel que impõem o ritmo do discurso, sempre variável, bem como a escolha de palavras ou expressões cómicas que escondem a sua comicidade numa aparente rigidez.
A construção do discurso do primeiro painel assenta na ironia fina, acompanhada por uma criatividade a nível semântico e por uma arbitrariedade na sintaxe, eximiamente exploradas pela disposição do eu-narrador para criar obstáculos da leitura, e ao mesmo tempo, seduzir. Tudo é justificação para a sua obsessão pela escrita, então avança com uma escrita de inquietação e de interpretação. A inquietação foca o fundamentalismo o tema da mote, cujos contornos são bastantes visíveis logo na dedicatória. O livro é dedicado a Carolina Fonseca Caupers, mãe de primeira esposa do escritor, porque “foi uma pessoa que me ensinou como se morre”. A filosofia existencialista revela-se aqui como uma das bases possíveis de análise da obra.

II-Painel
 O primeiro painel é preenchido, por uma infância imposta junto da Família. Este painel, por sua vez, o qual corresponde no tríptico ao painel central, aparece o mesmo eu/narrador noutra fase, isto é, exprimindo conhecimentos advindos da sua actividade de viajante (com Simão e Gaspar), para posteriormente, atingir o auge com a rapariga do canavial, Luísa Estrela e Zana.
No capítulo intitulado a Zana, Bragança introduz uma carta, género literário tão ao gosto do Romantismo português, onde recorda o seu passado com Zana.
O texto de Nuno Bragança nutre-se com a expressão do feminino, logo a ausência deste capítulo estimula, incute nas palavras um estado moribundo que se vai intensificando até ao final do romance.
 Anabela, aparece para substituir Zana, a presença paliativa, força para tentar inverter a curva descendente. Todavia, o homem não consegue iludir o leitor, visto que deixa escapar os sintomas da solidão que o atravessa. Este painel e extremamente sóbrio e distante.

III-Painel
 A conclusão do tríptico, terceiro painel, inicia-se com uma só frase, numa página em branco: “ Escrevo isto debaixo de um freixo que por acaso é um pinheiro seco” pode considerar se um titulo a todo o painel, que desenha uma metáfora de auto reflexividade literária, perfeitamente supérflua para a exegese do derradeiro painel.
O combate do eu/sociedade volta a estar novamente no centro do painel. Exige-se mais do que nunca, aqui, ao leitor um esforço suplementar para enfrentar as ideias fragmentárias que vão nascendo, no painel.
Constata-se, neste ultimo painel, um ressurgimento de temas que consagram outros testos anteriormente apresentados sob a forma de paródia. Agora, com pinceladas leves, a condição da mulher, o Estado, a justiça, as condições e desigualdades sociais, a imbecilidade da opulência, marcam presença. Neste terceiro painel, o narrador foge do nexo para apalpar a realidade, procurando transmitir a sua ausência na realidade. Estas reflexões são espelhos da realidade.     

  



Nuno Bragança
Nuno Manuel Maria Caupers de Bragança nasceu em Lisboa a 12 de Fevereiro de 1929 numa família da alta aristocracia portuguesa a Casa de Lafões, descendente do rei D. Pedro II, sendo seu pai, D. Manuel de Bragança e sua mãe, Maria Margarida Street Caupers.
Começou por frequentar o curso de Agronomia, mas cedo dele desistiu, transitando para o curso de Direito. Que completara em 157.
A partir do ano do seu casamento, 1955, com Maria Leonor Fonseca de Matos e Goes Caupes, sua prima, integra a equipa do jornal Encontro (órgão de JUC- juventude Universitária Católica), onde publicou os seus primeiros textos de Literários.
Este é outro aspecto determinante da vida de Nuno Bragança: a clandestinidade obrigava-o a um secretismo esmagador.
Da segunda metade dos anos 50 datam textos com A Morte da Perdiz, O Guardador de Porcos ou Guliveira e os Liliputo. Pela mesma altura escreveu inúmeras críticas cinematográficas. Paralelamente, na sua vida profissional especializou-se em problemas de Emprego, fez parte do movimento chamado «católicos progressistas». Foi co-fundador da revista O Tempo e o Modo, de que foi colaborador entre 1963 e 1969. Nos anos 60 foi militante do Movimento de Acção Revolucionária. A sua tendência revolucionária tinha-se intensificado. Interessava-lhe mais a acção romântica e revolucionária.   
A partir de 1968 fixou-se em Paris, trabalhando na representação de Portugal. Data desta época a publicação do seu primeiro romance “A Noite e o Riso”. No fim de 1972 volta a Portugal. (Em 1985 morre.)
Levantava se às cinco da manhã, todos os dias, para escrever.
Cristão empenhado e consciente da luta de classes, homem preso pela vida.
“A noite e o riso”, livro constituído em três partes (painéis).
O primeiro painel é caracterizado pelo humor
O segundo painel é caracterizado por ser extremamente “sóbrio e distante”, mas nós só sabemos como ele se sente através dos gestos dele,
O terceiro painel caracteriza se por ser um conjunto de micro-relatos morais com uma espécie de experiência de vida. Esta é uma questão importante, porque a estranha estrutura do livro é algo de apreciação contraditória.  





          

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Carta de Ruy Cinatti ao Pe. João Cabral.


Carta ao Pe. João Cabral

Meu querido amigo, Padre Cabral, Irmão João
Que ideia, que ideia, eu ficar zangado! Zangado porquê?! Então o Pe. Cabral pensa que lá por ser poeta, ou melhor, pelo facto de ser poeta me iria susceptibilizar com opiniões, ainda mais quando estas são mais precisamente de ordem afectiva. Não, nunca. Fique de uma vez sabendo, e eu já várias vezes o tenho manifestado, que não há coisa que mais me aborreça que a preguiça sentimental. Por dar imenso valor ao sentimento não o posso querer desvirtuado. Há uma coisa que é de ordem inteligente, uma ternura inteligente, uma sensibilidade inteligente, que eu muito prezo, acima de todos, nos meus amigos. Mas ficar zangado pelo facto de o Pe. Cabral não se ter adaptado, melhor, não ter tido aptidão para o meu livro, já lhe disse — isso nunca. O que posso fazer é conversar consigo, explicar-lhe um certo número de assuntos. Aliás, quando lhe ofereci o livro já sabia que o Pe. Cabral o não poderia apreciar como obra em si, isolada do autor. Mandei-lho, porque ele me pertence, porque até agora este livro representa a única prova material, objectiva, da graça que Deus me deu. Sim, porque se eu me sinto penalizado para comigo de não ter servido a Nosso Senhor, melhor, para benefício dos outros. Mandei-lho como quem se confessa. Porque sei que os meus pecados são uma miséria perante a misericórdia de Deus em si, Pe. Cabral! Porque eu também o conheço, Pe. Cabral. E conhecendo-o, amo-o, não importa as divergências que possa haver entre nós. Cada vez mais me afirmo na verdade de que só as almas interessam. E onde está um homem está uma alma. É um erro, e esse erro já se faz sentir nas consequências, suporem-me capaz de me ligar a este ou àquele emblema pela razão de maior afinidade. Quando digo emblema, digo homens, ideias, coisas. Não tenho eu ido para junto dos Jesuítas quando tudo em mim me chama para os Beneditinos ou para os Franciscanos? Não me misturo eu aos comunistas e ainda mais a muitos rapazes orgulhosos no pecado ou humildes no pecado [?]. Ah! e eu teria muito maior paz junto àqueles que aceitam a minha verdade que é a de Jesus Cristo através da sua Santa Igreja! Maior paz, mas não melhor. É que junto desses transviados eu sinto quanto é grande a minha miséria, são eles que trazem luz à minha consciência adormecida num bem-estar que é transitório. Ora veja como o Pe. Cabral serviu de objecto para uma meditação. E que me fez lembrar o tempo passado e o que é presente, em que eu me intimido por razões secundárias, me calo, temendo o escândalo da Verdade. Mas o Pe. Cabral conhece-me e isso é que é grave. Grave para mim, pois não lhe mereci ainda inteira confiança, porque se embaraçou demorando-se em responder-me, hesitando dias seguidos no que havia de me dizer. Grave para mim, pois supondo-me isento de respeito humano sou acusado indirectamente por aqueles que melhor me conhecem. Uma vez mais o que eu penso não corresponde à realidade. Vamos pedir a Deus para que isso aconteça.
Quanto à poesia (mas o Pe. Cabral não me falou da introdução em prosa). Se por razões de ordem intelectual e estética não pôde comunicar com a minha poesia, porque não me falou da prosa, esquecendo a poesia? É este um princípio de crítica que anda muito esquecido: falar apenas do que podemos entender de alma e coração: falar com amor; isto é, criticar quando estamos em perfeita identidade com o objecto. É verdade que haveria muito menos crítica se esquecermos o tempo que é sempre o melhor crítico.
Se dou muito valor à poesia é que ela é para os poetas chamados de modernistas (o modernismo já tem bem uns cinquenta anos!) uma porta de salvação. Tem um carácter sacro, é a vida mais sobreelevada, mais íntima, mais religiosa de muita gente mesmo que não se exprima em poesia.
Por isso a poesia moderna só pode ser apreendida com espírito de oração. É preciso esperar: é necessário que se façam trevas para que a luz se revele. Ela é luz e não claridade. Por isso a poesia moderna tem um carácter verdadeiramente religioso, cristão, mesmo quando parece estar em antagonismo com a religião cristã. Ela é luz e não claridade. Como nos primeiros tempos do cristianismo ela priva-se da claridade greco-latina para melhor receber a luz divina. Este carácter de humildade salva a poesia moderna de muitos excessos. Por isso estando na linha de continuidade da verdadeira poesia de todos os tempos, ela não é um objecto de prazer para os sentidos, de deleite para certos momentos: é a vida com toda a sua estranheza, encanto, contradição. Falo evidente¬mente da verdadeira poesia moderna. Lembro-me desse santo laico que é o José Régio.
Repare neste pedaço de uma poesia do Régio transcrita pelo P.° João Mendes no seu livrinho sobre os «três verbos da vida». Quantos não acharão abstruso, apoético (no sentido dos Correias de Oliveiras e muitos outros arranjadores de raminhos floridos do século XIX e ainda neste) e, no en¬tanto como é uma poesia que os católicos bem formados percebem, porque é uma poesia que se ele¬vou na compreensão de uma verdade que nós aprendemos de cor, muitas vezes sem nela meditar.

EXAME DE CONSCIÊNCIA

Sabe (se é que o não sabes)
Que ao teu amor por mim foi que ganhei amor,
Que a ti... sei se te amo.
Sei que me deixam sozinho
Ante o girar dos mundos e dos séculos!
Sei que um deserto é o meu caminho;
Sei que o silêncio
Me há-de sepultar em vida;
Sei que o pavor, a noite, o frio,
Serão jardim da minha ermida;
Sei que tenho dó de mim...
Fica tu sabendo assim,
Querida!
Porque te chamo.
Mas amar-te?!
Não! reduziram-me a isto:
Só a mim amo.

Parece-me que isto é muito mais religioso porque corresponde a uma realidade vital, a uma angús¬tia verdadeiramente metafísica transposta para um caso particular, do que todos os poemas de muitos poemas que falam de Nosso Senhor com Ele a mil infinitos de distância, sem O compreenderem, sem entrarem no conhecimento de si próprios e aí encontrarem o latejar do nosso Eu verdadeiro: Deus.
Ou então,
Poderás amar-me assim, (Como explicar-me?) Por qualquer Cousa que eu for Mas não por mim, não a mim...

também de José Régio e em que ele procura a Deus no amor. Vale mais do que todos
Amo-te ó Cruz nos vértices firmada
De rútilas Igrejas etc.
Tárá tá tim — Tara tá tim, Tara tá tim.

em que a Cruz não se encontra bem dentro de nós como objecto de Amor, mas fora de nós, apenas como objecto de admiração de curiosidade, alheia a nós, mesmo quando em pensamento a deseja¬mos em nós.
Já reparou que as igrejas portuguesas são mais uma feira dos nossos pecados do que a casa on¬de se dá glória Deus! O mau gosto é um insulto a Deus, as florinhas de papel de todas as cores são insulto a Deus. A sua fealdade, a sua fraqueza, dureza de coração, tibieza de fé, nenhum paladar para o sobrenatural, reinado de convenções, podridão, farisaísmo etc., etc. E no entanto, e isto é para comover, continuam as velhotas a ir à Missa, cheias de piedade, muito absurdas, que nos fazem sorrir quando deveriam fazer chorar de arrependimento. Isto também sucede com a poe¬sia. Foi a superabundância de pobreza de alma e de ingratidão que motivou o movimento modernista que, antes de cantar e de louvar procurou investigar as causas do mal anterior, em si próprios; como cegos caminharam, como as velhotas mantiveram-se fiéis à sua mais sagrada verdade, como homens inteligentes fizeram o seu exame de consciência. O tempo já se iniciou em que descober-tas as fontes de água pura, os poetas cantam com a certeza.

Desculpe Pe. Cabral este testamento. Creia que por Bem. Agora escreva-me e não demore mui¬to. Ajude-me a caminhar, pois cada palavra que me disser é um passo a mais que eu dou e que Deus há-de abençoar. «Sed tantum dic Verbo.»
Falar-lhe-ei da rapaziada na próxima carta. Mas antes responda a esta.

Seu muito amigo Ruy

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Sobre Fernando Pessoa

A propósito da minha apresentação de amanhã, e porque o tempo escasseia e que alguns já viram este vídeo numa outra apresentação minha, cá fica um vídeo interessante sobre o meu autor...


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Leitura teológica de Por que motivo se rebelam os pagãos? de Flannery O’Connor



  Desde o início do texto até que se lança o diálogo entre Walter e sua mãe (pp. 185-186) é-nos apresentado a situação de pano de fundo desafiante para o questionado Walter. Este pano de fundo corresponde ao regresso de Tilman (pai de Walter) a casa depois de um acidente vascular cerebral. A posição de Walter é questionada face a este problema, e é nesta chave de leitura que salto para a minha leitura teológica: a da via sacra, paixão e morte de Jesus. Passo a explicar, no trecho referido, são enunciados temas ou figuras que poderão ser remetidas para a via sacra, paixão e morte de Jesus que será assumido na personagem de Tilman. Este último “tivera o acidente vascular cerebral na capital do estado”, qual Jerusálem onde Jesus dera a sua vida. Mas sucedem-se as imagens: “Não tinha memória do regresso a casa na ambulância, mas a esposa lembrava-se bem. Passara duas horas sentada no assento desdobrável aos pés dele, a olhar fixamente para o seu rosto.” “Não tinha memória” como Jesus morto que é levado para o sepulcro e, por isso, só a esposa (Maria e a Igreja) “lembrava-se bem” guardava memória destes acontecimentos. “Aos pés dele, a olhar fixamente para o seu rosto” sugere-nos a tradição da Sra da Piedade que segura o seu filho nos braços que contempla o seu Filho morto. Também os motivos da cara nos poderão fazer retomar, não só o que se disse com a ajuda do Padre Pedro Boto acerca da cara de Jesus na Pietá de Miguel Angelo, mas também as últimas palavras de Jesus a cruz. “A justiça era coisa cruel e a esposa dava-se por satisfeita quando aquela lhe assistia”: esta é a oração de Maria junto à cruz, quando retoma o “uma espada trespassará a tua alma” e “guardava todas estas coisas em seu coração”.
  Adiantando-me um pouco no texto, insiro aqui o “- Levanta-te, Walter, vai abrir a porta!” como clara inversão do que fizera o Cireneu, mas que não deixa de testemunhar aqui a entrada do desafio na vida de Walter. E nesta linha, inserimos também aqui o “observou, nitidamente fascinado o rosto do seu pai” de alguma maneira afectado pelo acidente não seria fácil encará-lo e esta é uma emblemática imagem usada para ilustrar o rosto sofredor de Jesus.
  Para concluir esta breve reflexão acerca da “via sacra” surge como brincadeira Roosevelt, o escravo que chora por seu patrão sem compreender bem a sua situação de escravo provavelmente, o que nos actualiza a imagem das mulheres de Jerusálem que antes deviam chorar por seus filhos.
  “Talvez esta desgraça fosse o que era preciso para Walter acordar.” Este é o desafio do encontro com Jesus morto e ressuscitado, como presenciamos no exemplo do bom ladrão ou do centurião e para aí se encaminha a continuidade do texto de Flannery O’Connor.

Por que motivo se rebelam os pagãos?
Entrar neste conto de Flannery O´Connor é como entrar num edifício cristão onde as palavras se revelam e nos permitem olhar aquilo que já conhecemos em outros momentos ou em outras passagens.
A começar pelo olhar ferido com que olhamos estes momentos dolorosos encontrados na morte e na crucificação de Cristo, desgraça essa que desperta para o implacável, para o impressionante da vida, surge-nos um caminho de esperança - o momento de chegar a casa e reencontrar aqueles que mais amamos e que nos esperam… sentido a forte respiração por um momento especial que raras vezes acontece nas nossas vidas.
Passando pelos dedos, que marcam e demarcam a experiência de cada um, como quem marca um parágrafo do livro quando pára, pensando e dando sentido às palavras que o atravessam, numa busca desmedida de sentido para explicar todo o momento da paixão.
Os sentimentos fortes que se sentem num caminho, numa experiência que abre horizontes, que demarca as nossas faces com lágrimas e que num momento de morte olha, olha para o alto como quem se entrega por inteiro. E nesta forte experiência o rosto da mãe endurece ainda mais, o coração aperta, a boca transforma-se em indignação e a cabeça treme, uma “revelação instantânea de que o filho não tinha lar. Não tinha lar aqui e não tinha lar em lado algum”.
Este homem, diferente, que se ocupava de trivialidades, de temas que não faziam sentido, que apresenta um amor que deve ser “pleno de fúria”, que adverte aqueles que não sabem o que fazem na casa de seu pai, daí que se apresente como um general - que julga os vivos e os mortos, denominado de Jesus.

Antonino Gomes de Sousa 

“Por que motivo se rebelam os pagãos?”
Imerso no esforço de encontrar o evangelho neste conto deparei-me com um cenário de cores variegadas, um verdadeiro caleidoscópio, onde pareciam estar imbricados múltiplos traços de figuras que de alguma forma estavam presentes no Evangelho.
Intrigado desde logo pelo título “Por que motivo se rebelam os pagãos?” vi esvair-se a esperança da resolução da questão na última página do conto.
Não me deixei intimidar e procurai centrar-me no pedido, a saber, descobrir no texto as fontes bíblicas inspiradoras, numa tentativa de leitura teológica. O aparente protagonismo de Tilman e o hipotético paralelismo com o Cristo sofredor da cruz saíram malogrados pela inversão do protagonismo.
Walter, o filho rebelde surgiu com a luz do centro do palco. Atormentado pela desinquietação da mãe, Walter ferido pela modorra da existência parece agir apaticamente como um inútil, um“pau mandado”: “…vai abrir, a porta!”; “Fecha a porta estás a deixar entrar moscas.” Um filho distante e, por isso, inicialmente imagem adequada do filho pródigo (Lc 15, 11-32)absorto nos seus interesses e alheio a vontade dos pais. Ideia confirmada pela ausência de um lar, de uma casa: “…o filho não tinha lar. Não tinha lar aqui e não tinha lar em lado algum.”
Se por um lado, diante da iminência do compromisso Walter parece esquivar-se, por outro, apresenta-se como aquele que reconhece o valor da sua mãe, do seu potencial subaproveitado. Mary Maud evocou dentro de mim o episódio da mulher adúltera (Jo 8) que viu a sua dignidade ser restituída por Cristo. Assim faz Walter: “Uma mulher da sua geração é melhor do que um homem da minha”.
Quem era então Walter? Alguém que gostava de passar despercebido evitando escrever a título próprio, recorrendo a personalidades, alheio ao farisaísmo que tinha marcado a existência do pai e do avô. O ser de Walter estava envolto no mistério – “Era impossível perceber o que Walter sabia, ou quais os seus pontos de vista[…]”. Se ausente dos problemas da atualidade era atento a voz das palavras mais vetustas com que cismava, deslumbrado.
Seria personificação de Cristo, igual a nós, mas, ao mesmo tempo, tão especial?

“O homem”
Em “O homem” de Sophia de Mello Breyner Andersen as raízes bíblicas, tal como numa árvore de grande porte, pareceram-me profundas, mas salientes à vista.
O “homem” parece identificar-se imediatamente com Cristo, coarctado na figura do pobre andrajoso que passa despercebido ao asco humano. Este cristo que leva ao colo um belo menino. Paixão e incarnação parecem coabitar nesta figura. Na beleza da criança está a expressão do belo pastor – “[…] levava ao colo uma criança loira, uma daquelas cuja beleza não se pode descrever.” No corpo do homem pobremente vestido esta Cristo crucificado desmazelado pelo nosso pecado.
Esta imagem despoleta a atenção de um transeunte no meio da correria da caterva desinteressada. Tal como no crucificado encontramos Cristo a olhar para o Céu expectante por um sinal do Pai numa atitude de “[…] resignação, espanto e pergunta.”  As planícies irrelevantes do céu são o sinal evidente do silêncio de Deus. Tal como os judeus, o transeunte sente-se tentado a seguir o mesmo caminho da turba multa, tal como no episódio do samaritano sente-se tentado a passar ao lado como muitos o fizeram. Todavia, desenhou-se a partir das memórias, dos livros e das fotografias a expressão de consumação: “Pai, Pai, por que me abandonaste?”.
Num ápice tal como o crucificado, o homem cai às mãos da morte, “manchado de sangue” e sepultado pelo interesse desinteressado da multidão dispersa. Porém, o homem como que ressuscitou –“[…] continua ao nosso lado”.

Sophia de Mello Breyner Anderson- O Homem

O conto de Sophia sublinha, repetindo pelo menos por três vezes, o homem que caminha: “muito devagar” (…) “lentamente, muito lentamente” (…)”caminhava muito devagar”. A reportar à caminhada do homem, sobre a terra, ele é muito lento a dar a vida; o homem faz resistência a dar-se e a dar-se totalmente a Deus, por isso, caminha muito devagar. Jesus carregou a cruz para dar a vida, não fez resistência. Fil 2,8 “Aparecendo como homem, humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte e morte de cruz”.
Por várias vezes, também encontramos no texto a alusão ao céu, ao olhar para o céu como: um lugar de silêncio, frio, lugar de onde se espera uma resposta. O homem anda na terra mas caminha para o céu, onde está Deus. Anseia pela morada eterna. Salmo 121,2 “Elevo os meus olhos para os montes de onde me virá o auxílio o meu auxílio vem do senhor que fez o céu e a terra “. Este homem pobre, miserável que nos fala o conto e que ninguém repara é Jesus, na sua paixão todos olham mas ninguém vê o mistério de amor, como que há uma indiferença, como hoje estamos indiferentes, acomodados e Deus, praticamente não conta, não lhe damos importância. O conto acaba afirmando que mesmo assim, e apesar de tudo isto, o homem (Deus) continua ao nosso lado, diríamos do nosso lado. 
Por isso, o caminhar deve ser  o mais longe que se pode ir…

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Uma perspectiva do conto "Por que motivo se rebelam os pagãos?"

No conto "Por que motivo se rebelam os pagãos?" de Flannery O'Connor, procurarei abordar brevemente a relação entre a mãe e o filho, Walter. A mãe sofre com o filho. Julga tê-lo perdido. Teme já não o conhecer. Esta relação entre mãe e filho traz-me à memória a perda e reencontro de Jesus no Templo entre os Doutores. Também aí, ao encontrar Jesus, Sua Mãe pergunta: “Filho, porque procedeste assim connosco? Não sabias que Teu pai e eu andávamos aflitos à Tua procura?” (Lc 2, 41-52). A comparação entre estas duas Mães e estes dois Filhos é certamente arriscada, mas poder-se-á desenvolver. De facto, há alguns pontos de contacto entre a Mãe e Nossa Senhora: de Nossa Senhora, sabemos que “guardava todas as coisas em seu coração”, isto é, todos os acontecimentos que contemplava eram meditados em silêncio, não entendendo tudo mas aceitando e procurando compreender os desígnios de Deus. Inclusivamente, no episódio da perda do Jesus no templo, Maria apercebe-se de que o Filho reencontrado, embora submisso, está diferente. De forma semelhante, sabemos neste conto que “o coração da mãe apertou-se” (pág. 188), ao ouvir a resposta de Walter. Igualmente ficou gravado no seu espírito aquela passagem que encontrara no chão da casa de banho. Este coração da mãe que acolhe os acontecimentos, que se gravam no seu espírito, é um coração mariano, inquieto perante a vida do filho. Também há algum paralelismo entre Walter e Jesus. Walter diz: “Julgava que estava na minha casa (pág. 188)”. Jesus respondeu aos seus pais, quando estes O encontraram no templo: “Porque me procuráveis? Não sabíeis que devia estar na casa de Meu Pai?”. A referência à casa, ao próprio lugar, o caminho rumo à descoberta de si mesmo, é comum entre Jesus e Walter. Por outro lado, como exemplo duma possível contra-argumentação, poder-se-ia alegar que Walter “tinha ar de quem aguarda um grande acontecimento e não deita mãos a obra nenhuma” e Jesus, pelo contrário, na sua vida oculta trabalhou com seu pai, S. José, não caindo na ociosidade. Certamente muito mais se poderia dizer, mas ficarei por aqui, até porque não é esse o objectivo deste comentário.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

RIFÃO QUOTIDIANO (com video, clicar)

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

Mário Henrique Leiria

Para já é o que digo. Veio me à cabeça durante a aula. Penso ter o seu propósito. Prometo para breve uma reflexão.

Miguel Ângelo

O despertar

Quando alguém se reveste de superioridade moral, julga ter em si as razões demais evidentes, para chamar a atenção dos outros e os acordar do erro em que se encontram. A pessoa em causa age como se ouvisse apenas as palavras que quer ouvir, tudo se torna indício confirmando a sua posição
No conto "Por que motivo se rebelam os pagãos?" de Flannery O'Connor, a Mãe de Walter e de Mary Maud, a qual o nome não é referido ao longo do conto, parecer ser o elemento que procura despertar o seu filho, Walter, da letargia. É curioso notar, que naquilo para o qual a Mãe parece surgir, é precisamente aí que acaba por falhar. Considerando o sentido inicial do texto, é desejado por todos, até pelo leitor, de que Walter acorde, mas então porque será que Walter não acorda? Será que a Mãe falha enquanto personagem para aquilo que foi criada?
Em nosso entender, a Mãe falha, porque no conto a sua finalidade não é acordar o filho. O filho está acordado!
Uma das frases que mais me chamou a atenção no conto, foi a seguinte: «É bom tornar a vê-lo Capitão.» A razão de ser desta frase pode ser a de que Tilman esteve de facto na guerra e foi capitão, mas essa seria uma explicação preguiçosa. Um pouco mais à frente encontramos no interior de uma citação,uma referência igualmente militarizada : «Que fazeis vós na casa de vosso pai, oh soldado efeminado?». O facto de que Walter sublinhou esta citação, que sua mãe posteriormente encontrou, é sinal de que esta passagem do livro não lhe tinha passado despercebida. Walter sabe que é o soldado efeminado que habita na casa de seu pai.
A acção do conto ao deixar Walter, recentra-se na Mãe, esta anseia por despertar seu filho, por lhe impor uma máscara, um papel que ele terá de representar, tal como a sua filha Mary Maud desempenha na perfeição o papel de professora.
O conto termina da seguinte forma: «Foi então que lhe ocorreu, com um pequeno sobressalto desagradável, que o General com a espada na boca, em marcha para espalhar a violência, era Jesus.» A Mãe tendo todas as boas razões do mundo para acordar Walter, acaba por ser ela despertada dos seus ídolos preconcebidos. É a Mãe que parecendo ser a personagem que chama à razão Walter, será agora acordada. O filho, sendo pedra de tropeço, faz despertar a sua Mãe. Esta descobre que é Jesus Cristo o grande general, aquele que avança e que muito possívelmente, governa a vida do seu filho.
Em conclusão, todo o conto parece fazer referência, em nosso entender, à passagem do Evangelho S. Mateus: «Porque reparas no argueiro que está na vista do teu irmão, e não vês a trave que está na tua vista? Como ousas dizer ao teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro da tua vista, tendo tu uma trave na tua? Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista e, então verás melhor para tirar o argueiro da vista do teu irmão». Mt 7, 3-5

Sinopse de " O Homem"

Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo
Eis a sua Igreja, criança que chora
Eis que tirariam o pecado, se eu deixasse
Eis que me esqueço, confesso

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Subir contra a corrente do rio da multidão...


“O Homem” – Sophia de Mello Breyner Andersen 

Neste conto de Sophia de Mello Breyner, fiquei logo com a imagem da Paixão de Cristo, “Intimamente o meu olhar ficou preso um momento na cara da criança” a criança que vai ao colo de um homem pobremente vestido, com um ar destroçado, esse homem é para mim Jesus Cristo que carrega a criança, que é a Cruz, que simboliza a vida que é a beleza que faz com que o olhar fique preso, nem que seja por instantes.

Ela que, acabou por ficar presa na cara do homem que levava a criança, deixa-se mergulhar e segui-o como as mulheres que seguiam Jesus a caminho do Calvário, “Jesus voltou-se para elas e disse-lhes: «Filhas de Jerusalém, não choreis por mim, chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos”(Lc. 23, 28), no meio de “Rios de gente passavam sem o ver”. 

E quando sobe contra a corrente do rio da multidão, tentando encontrar aquele olhar que a tenha deixa fixa a si, que lhe deu forças para lutar contra a corrente do rio, eis que o encontra “Tinha parado, mas continuava a segurar a criança e a olhar para o céu. Corri, empurrando quase as pessoas…o homem caiu no chão” é quando se dá a morte de Cristo, “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito. Dizendo isso, expirou.” (Lc. 23, 46). Depois da morte, Jesus é levado para o sepulcro e no texto é representado pela multidão que parou e formou um círculo à volta do homem - homens altos que impediam de ver aquele que tinha caído por terra, aquele que tinha morrido, mas que havia vencido a morte. A morte é vencida, pois quando o círculo se abriu, quando o túmulo é aberto, “o homem e a criança tinham desaparecido” - "Encontraram a pedra do túmulo removida, mas, ao entrar, não encontraram o corpo do Senhor Jesus" (Lc.24, 2-3), é a Ressurreição…

E neste momento ou se segue na corrente do rio “caminhando para a frente, levada pelo movimento da cidade" ou se acredita que Cristo Ressuscitou verdadeiramente e o “O homem certamente morreu. Mas continua ao nosso lado. Pelas ruas”


Breyner vs  Agostinho

v  “Rapidamente evoquei todos os lugares onde eu tinha vivido. Desenrolei para trás o filme do tempo. As imagens oscilantes, um pouco trémulas e rápidas. Mas não encontrei nada. E tentei reunir e rever todas as memórias de quadros, de livros, de fotografias (…). E do fundo da memória, trazidas pela imagem, muito devagar, uma por uma, inconfundíveis, apareceram as palavras: Pai, Pai, por que me abandonaste?” (Sophia de Mello Breyner Andresen – Contos Exemplares, pp. 158-159).

Ø  “Ao recordar de ti, ultrapassei as regiões da memória que também os animais possuem, porque aí, entre as imagens dos seres corpóreos, eu não te encontrava. Passei às regiões onde depositei os sentimentos do espírito, e nem mesmo aí te encontrei”. (Santo Agostinho – Confissões: Lugar de Deus na memória, Livro X, 25, p. 294).

v  “Voltei para trás. Subi contra a corrente o rio da multidão. Temi tê-lo perdido (…). Corri, empurrando quase as pessoas. Estava já a dois passos dele. Mas nesse momento, exactamente, o homem caiu no chão (…). Eu estava de lado fora do círculo. Tentei atravessá-lo, mas não consegui (…). Muitos anos passaram. O homem certamente morreu. Mas continua ao nosso lado. Pelas ruas”. (Sophia de Mello Breyner Andresen – Contos Exemplares, pp. 160-161).

Ø  “Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais te amei! Eis que habitavas dentro de mim, e eu te procurava do lado de fora! Estavas comigo, mas eu não estava contigo (…). Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez (…). Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti”. (Santo Agostinho – Confissões: “Tarde te amei!...”, Livro X, 27, p. 295).

O silêncio de Deus e o silêncio do homem


O SILÊNCIO DE DEUS E O SILÊNCIO DO HOMEM

Charles Mceller, na introdução do seu livro Literatura do século XX e Cristianismo I, expressa nitidamente o silêncio de Deus da seguinte forma:
“Num certo sentido, Deus fala-nos sem cessar. Noutro sentido, cala-se. Embora conheçamos o desígnio geral da sua providência, ignoramos tudo quanto aos seus intentos particulares. Abandonar-nos à fé é, portanto, a nossa única atitude cristã. […] A consciência da aparente ausência de Deus no mundo. […] O custo de vida aumenta sem parar. Silêncio de Deus, outra frase para traduzir o absurdo do universo. Será o homem uma paixão inútil?”[1].
A ausência de Deus torna-se uma questão inevitável. A busca de encontrar resposta a situações tremendas que o homem enfrenta, de quando em vez levanta questões. Deus que é a última esperança não dá resposta directamente. Deus cala-se ou Deus está longe de nós? - como diz o cantor famoso da Indonésia, Ebied G. Ade.
            O silêncio de Deus é uma temática marcante na literatura. O conto – o Homem - de Sophia de Mello Breyner Andresen levanta também esta questão. “O homem pobre levantou a cabeça para o céu. […] Era um céu alto, sem resposta, cor de frio. O homem levantou a cabeça no gesto de alguém que, tendo ultrapassado um limite, já nada tem para dar e se volta para fora procurando uma resposta. Com a cabeça levantada, olhava o céu. Mas o céu eram planícies e planícies de silêncio”. Deus não dá resposta ao pedido do homem pobre.
            O narrador manifesta também o silêncio do homem. Esta perspectiva está bem patente. O narrador diz: “A multidão não parava de passar. Era o centro do centro da cidade. O homem estava sozinho, sozinho. Rios de gente passavam sem o ver”. A resposta e a ajuda da multidão – outros personagens - vinham muito tarde, quando o homem pobre já tinha caído no chão. “ […] O homem caiu no chão. Da sua boca corria um rio de sangue. […] Então, a multidão parou e formou um círculo à volta do homem. Ombros mais fortes do que os meus empurraram-me para trás”.
O homem do nosso tempo preocupa-se mais com a sua situação individual, o que leva a não se interessar pelo seu irmão necessitado. O homem fecha-se em si mesmo. Então, não só há o silêncio de Deus, mas também o silêncio do homem.


[1] Charles Mceller, Literatura do século XX e Cristianismo I, trad. Augusto Sousa, São Paulo, Editora Flamboyant, 1958, pp. 11-12.

O Confronto

A Carta a Diogneto diz-nos: o cristão vive no mundo, mas não é deste mundo. Onde o cristão habita parece existir uma planta fora do sítio, é como uma mancha vermelha num filme a preto e branco. Ao ler o conto de Flannery O'Connor - "Por que motivo se rebelam os pagãos?" e o conto de Sophia de Mello Breyner "O Homem" vislumbro um lugar comum paralelo: o confronto.
O cristão confronta o mundo, ao pôr em causa as falsas imagens, as máscaras e comodismos. O cristão é como uma nódoa no meio da toalha, atrai as atenções para si, mas no fundo não é por causa de si que as atrai. Este pára e vê o mundo com um olhar diferente, com uma novidade própria daquele que não irradia nada por si mesmo, mas reflecte a luz que não é sua.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Jesus dinamitador



Pum!

Olha lá, pondé que vais?
Tu fumas o quê?
Tá quieto pá!
Caneco!

Pum!

Oh! Tás parvo?
Ó meu, psssss, chega-t’aqui!
Idiota larga isso…
Caneco!

Pum!

Trolha!
É mesmo chico esperto…
Tás todo frito.
Ai o caneco!

Pim, Pim, Pim…

Da autoria de Rodrigo Luís Santos Alves

Daniel Faria



Bastante contemporâneo, Daniel Augusto da Cunha Faria nasceu em Baltar, Paredes, a 10 de Abril de 1971 e veio a falecer a 9 de Junho de 1999 quando estava prestes a concluir o noviciado no Mosteiro Beneditino de Singeverga. Foi estudante em dois cursos, a saber: Estudos Portugueses na faculdade de Letras da Universidade do Porto e o curso de Teologia na Universidade Católica Portuguesa no Porto, concluído em 1996 com a defesa de tese de licenciatura.
Teve experiências enquanto encenador nas peças As Artimanhas de Scapan e o Auto da Barca do Inferno. Escrevendo, publicou obras como Oxálida e A Casa dos Ceifeiros (durante o curso de Teologia). Pelo auxílio da Fundação Manuel Leão publicou ainda Explicação das árvores e de outros animais; Homens que são como lugares mal situados Explicação das árvores e de outros animais; Dos Líquidos.

Especial agradecimento a Bernardo Trocado por me permitir publicar.
Rodrigo Luís Santos Alves