quinta-feira, 29 de novembro de 2012

RIFÃO QUOTIDIANO (com video, clicar)

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

Mário Henrique Leiria

Para já é o que digo. Veio me à cabeça durante a aula. Penso ter o seu propósito. Prometo para breve uma reflexão.

Miguel Ângelo

O despertar

Quando alguém se reveste de superioridade moral, julga ter em si as razões demais evidentes, para chamar a atenção dos outros e os acordar do erro em que se encontram. A pessoa em causa age como se ouvisse apenas as palavras que quer ouvir, tudo se torna indício confirmando a sua posição
No conto "Por que motivo se rebelam os pagãos?" de Flannery O'Connor, a Mãe de Walter e de Mary Maud, a qual o nome não é referido ao longo do conto, parecer ser o elemento que procura despertar o seu filho, Walter, da letargia. É curioso notar, que naquilo para o qual a Mãe parece surgir, é precisamente aí que acaba por falhar. Considerando o sentido inicial do texto, é desejado por todos, até pelo leitor, de que Walter acorde, mas então porque será que Walter não acorda? Será que a Mãe falha enquanto personagem para aquilo que foi criada?
Em nosso entender, a Mãe falha, porque no conto a sua finalidade não é acordar o filho. O filho está acordado!
Uma das frases que mais me chamou a atenção no conto, foi a seguinte: «É bom tornar a vê-lo Capitão.» A razão de ser desta frase pode ser a de que Tilman esteve de facto na guerra e foi capitão, mas essa seria uma explicação preguiçosa. Um pouco mais à frente encontramos no interior de uma citação,uma referência igualmente militarizada : «Que fazeis vós na casa de vosso pai, oh soldado efeminado?». O facto de que Walter sublinhou esta citação, que sua mãe posteriormente encontrou, é sinal de que esta passagem do livro não lhe tinha passado despercebida. Walter sabe que é o soldado efeminado que habita na casa de seu pai.
A acção do conto ao deixar Walter, recentra-se na Mãe, esta anseia por despertar seu filho, por lhe impor uma máscara, um papel que ele terá de representar, tal como a sua filha Mary Maud desempenha na perfeição o papel de professora.
O conto termina da seguinte forma: «Foi então que lhe ocorreu, com um pequeno sobressalto desagradável, que o General com a espada na boca, em marcha para espalhar a violência, era Jesus.» A Mãe tendo todas as boas razões do mundo para acordar Walter, acaba por ser ela despertada dos seus ídolos preconcebidos. É a Mãe que parecendo ser a personagem que chama à razão Walter, será agora acordada. O filho, sendo pedra de tropeço, faz despertar a sua Mãe. Esta descobre que é Jesus Cristo o grande general, aquele que avança e que muito possívelmente, governa a vida do seu filho.
Em conclusão, todo o conto parece fazer referência, em nosso entender, à passagem do Evangelho S. Mateus: «Porque reparas no argueiro que está na vista do teu irmão, e não vês a trave que está na tua vista? Como ousas dizer ao teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro da tua vista, tendo tu uma trave na tua? Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista e, então verás melhor para tirar o argueiro da vista do teu irmão». Mt 7, 3-5

Sinopse de " O Homem"

Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo
Eis a sua Igreja, criança que chora
Eis que tirariam o pecado, se eu deixasse
Eis que me esqueço, confesso

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Subir contra a corrente do rio da multidão...


“O Homem” – Sophia de Mello Breyner Andersen 

Neste conto de Sophia de Mello Breyner, fiquei logo com a imagem da Paixão de Cristo, “Intimamente o meu olhar ficou preso um momento na cara da criança” a criança que vai ao colo de um homem pobremente vestido, com um ar destroçado, esse homem é para mim Jesus Cristo que carrega a criança, que é a Cruz, que simboliza a vida que é a beleza que faz com que o olhar fique preso, nem que seja por instantes.

Ela que, acabou por ficar presa na cara do homem que levava a criança, deixa-se mergulhar e segui-o como as mulheres que seguiam Jesus a caminho do Calvário, “Jesus voltou-se para elas e disse-lhes: «Filhas de Jerusalém, não choreis por mim, chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos”(Lc. 23, 28), no meio de “Rios de gente passavam sem o ver”. 

E quando sobe contra a corrente do rio da multidão, tentando encontrar aquele olhar que a tenha deixa fixa a si, que lhe deu forças para lutar contra a corrente do rio, eis que o encontra “Tinha parado, mas continuava a segurar a criança e a olhar para o céu. Corri, empurrando quase as pessoas…o homem caiu no chão” é quando se dá a morte de Cristo, “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito. Dizendo isso, expirou.” (Lc. 23, 46). Depois da morte, Jesus é levado para o sepulcro e no texto é representado pela multidão que parou e formou um círculo à volta do homem - homens altos que impediam de ver aquele que tinha caído por terra, aquele que tinha morrido, mas que havia vencido a morte. A morte é vencida, pois quando o círculo se abriu, quando o túmulo é aberto, “o homem e a criança tinham desaparecido” - "Encontraram a pedra do túmulo removida, mas, ao entrar, não encontraram o corpo do Senhor Jesus" (Lc.24, 2-3), é a Ressurreição…

E neste momento ou se segue na corrente do rio “caminhando para a frente, levada pelo movimento da cidade" ou se acredita que Cristo Ressuscitou verdadeiramente e o “O homem certamente morreu. Mas continua ao nosso lado. Pelas ruas”


Breyner vs  Agostinho

v  “Rapidamente evoquei todos os lugares onde eu tinha vivido. Desenrolei para trás o filme do tempo. As imagens oscilantes, um pouco trémulas e rápidas. Mas não encontrei nada. E tentei reunir e rever todas as memórias de quadros, de livros, de fotografias (…). E do fundo da memória, trazidas pela imagem, muito devagar, uma por uma, inconfundíveis, apareceram as palavras: Pai, Pai, por que me abandonaste?” (Sophia de Mello Breyner Andresen – Contos Exemplares, pp. 158-159).

Ø  “Ao recordar de ti, ultrapassei as regiões da memória que também os animais possuem, porque aí, entre as imagens dos seres corpóreos, eu não te encontrava. Passei às regiões onde depositei os sentimentos do espírito, e nem mesmo aí te encontrei”. (Santo Agostinho – Confissões: Lugar de Deus na memória, Livro X, 25, p. 294).

v  “Voltei para trás. Subi contra a corrente o rio da multidão. Temi tê-lo perdido (…). Corri, empurrando quase as pessoas. Estava já a dois passos dele. Mas nesse momento, exactamente, o homem caiu no chão (…). Eu estava de lado fora do círculo. Tentei atravessá-lo, mas não consegui (…). Muitos anos passaram. O homem certamente morreu. Mas continua ao nosso lado. Pelas ruas”. (Sophia de Mello Breyner Andresen – Contos Exemplares, pp. 160-161).

Ø  “Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais te amei! Eis que habitavas dentro de mim, e eu te procurava do lado de fora! Estavas comigo, mas eu não estava contigo (…). Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez (…). Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti”. (Santo Agostinho – Confissões: “Tarde te amei!...”, Livro X, 27, p. 295).

O silêncio de Deus e o silêncio do homem


O SILÊNCIO DE DEUS E O SILÊNCIO DO HOMEM

Charles Mceller, na introdução do seu livro Literatura do século XX e Cristianismo I, expressa nitidamente o silêncio de Deus da seguinte forma:
“Num certo sentido, Deus fala-nos sem cessar. Noutro sentido, cala-se. Embora conheçamos o desígnio geral da sua providência, ignoramos tudo quanto aos seus intentos particulares. Abandonar-nos à fé é, portanto, a nossa única atitude cristã. […] A consciência da aparente ausência de Deus no mundo. […] O custo de vida aumenta sem parar. Silêncio de Deus, outra frase para traduzir o absurdo do universo. Será o homem uma paixão inútil?”[1].
A ausência de Deus torna-se uma questão inevitável. A busca de encontrar resposta a situações tremendas que o homem enfrenta, de quando em vez levanta questões. Deus que é a última esperança não dá resposta directamente. Deus cala-se ou Deus está longe de nós? - como diz o cantor famoso da Indonésia, Ebied G. Ade.
            O silêncio de Deus é uma temática marcante na literatura. O conto – o Homem - de Sophia de Mello Breyner Andresen levanta também esta questão. “O homem pobre levantou a cabeça para o céu. […] Era um céu alto, sem resposta, cor de frio. O homem levantou a cabeça no gesto de alguém que, tendo ultrapassado um limite, já nada tem para dar e se volta para fora procurando uma resposta. Com a cabeça levantada, olhava o céu. Mas o céu eram planícies e planícies de silêncio”. Deus não dá resposta ao pedido do homem pobre.
            O narrador manifesta também o silêncio do homem. Esta perspectiva está bem patente. O narrador diz: “A multidão não parava de passar. Era o centro do centro da cidade. O homem estava sozinho, sozinho. Rios de gente passavam sem o ver”. A resposta e a ajuda da multidão – outros personagens - vinham muito tarde, quando o homem pobre já tinha caído no chão. “ […] O homem caiu no chão. Da sua boca corria um rio de sangue. […] Então, a multidão parou e formou um círculo à volta do homem. Ombros mais fortes do que os meus empurraram-me para trás”.
O homem do nosso tempo preocupa-se mais com a sua situação individual, o que leva a não se interessar pelo seu irmão necessitado. O homem fecha-se em si mesmo. Então, não só há o silêncio de Deus, mas também o silêncio do homem.


[1] Charles Mceller, Literatura do século XX e Cristianismo I, trad. Augusto Sousa, São Paulo, Editora Flamboyant, 1958, pp. 11-12.

O Confronto

A Carta a Diogneto diz-nos: o cristão vive no mundo, mas não é deste mundo. Onde o cristão habita parece existir uma planta fora do sítio, é como uma mancha vermelha num filme a preto e branco. Ao ler o conto de Flannery O'Connor - "Por que motivo se rebelam os pagãos?" e o conto de Sophia de Mello Breyner "O Homem" vislumbro um lugar comum paralelo: o confronto.
O cristão confronta o mundo, ao pôr em causa as falsas imagens, as máscaras e comodismos. O cristão é como uma nódoa no meio da toalha, atrai as atenções para si, mas no fundo não é por causa de si que as atrai. Este pára e vê o mundo com um olhar diferente, com uma novidade própria daquele que não irradia nada por si mesmo, mas reflecte a luz que não é sua.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Jesus dinamitador



Pum!

Olha lá, pondé que vais?
Tu fumas o quê?
Tá quieto pá!
Caneco!

Pum!

Oh! Tás parvo?
Ó meu, psssss, chega-t’aqui!
Idiota larga isso…
Caneco!

Pum!

Trolha!
É mesmo chico esperto…
Tás todo frito.
Ai o caneco!

Pim, Pim, Pim…

Da autoria de Rodrigo Luís Santos Alves

Daniel Faria



Bastante contemporâneo, Daniel Augusto da Cunha Faria nasceu em Baltar, Paredes, a 10 de Abril de 1971 e veio a falecer a 9 de Junho de 1999 quando estava prestes a concluir o noviciado no Mosteiro Beneditino de Singeverga. Foi estudante em dois cursos, a saber: Estudos Portugueses na faculdade de Letras da Universidade do Porto e o curso de Teologia na Universidade Católica Portuguesa no Porto, concluído em 1996 com a defesa de tese de licenciatura.
Teve experiências enquanto encenador nas peças As Artimanhas de Scapan e o Auto da Barca do Inferno. Escrevendo, publicou obras como Oxálida e A Casa dos Ceifeiros (durante o curso de Teologia). Pelo auxílio da Fundação Manuel Leão publicou ainda Explicação das árvores e de outros animais; Homens que são como lugares mal situados Explicação das árvores e de outros animais; Dos Líquidos.

Especial agradecimento a Bernardo Trocado por me permitir publicar.
Rodrigo Luís Santos Alves

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Explosão de cor

José foi despedido
O ilustre carpinteiro
De suor escorrido
De trabalhar o dia inteiro

Um convite na brincadeira
E lá andava
Na fábrica de pirotecnia
Já trabalhava

Tantos foguetes queimou
Sem uma mão ficou
A esperança não o desanimou
Pois uma luz o guiou

José, com a ajuda do Espírito Santo
Todo o Espectáculo Pirotécnico preparou
Maria deu à luz
E o Fogo de Artificio disparou!
João Carlos Ganhão





Eduardo Lourenço de Faria
Eduardo Lourenço de Faria é um ensaísta português. Nasceu no distrito da Guarda em 1923. É um dos críticos mais notáveis da Cultura e Literatura Portuguesas[1]. É um grande intérprete da identidade portuguesa. Dá a conhecer o seu Portugal ao mundo internacional pela sua contribuição literária. As suas obras abrem os olhos e horizontes acerca daquilo que “fomos, somos e seremos”[2].
De todas as obras marcantes apresenta-se apenas a Heterodoxia I (1949) sendo a primeira obra do ensaísta e a Heterodoxia II (1967). Na Heterodoxia I, o ensaísta afirma o seu conceito de heterodoxia da seguinte forma: “A heterodoxia é a consciência absoluta da pluralidade histórica das ortodoxias. […] No plano do conhecer ou no plano do agir, na filosofia ou na política, o homem é uma realidade dividida. O respeito pela sua divisão é Heterodoxia”[3]. E na Heterodoxia II, o ensaísta continua a explicar a respeito do conceito heterodoxia. Nesse segundo prólogo, o ensaísta manifesta uma importância decisiva do destino do seu livro[4].
As suas obras inscritas no coração do povo português e no mundo levam-no a ganhar prémios. Eis os prémios que se apresenta: em 1988, recebeu o prémio Europeu do Ensaio “Charles Veillon”; em 2001, o prémio Vergílio Ferreira e no mesmo ano a medalha de Ouro da cidade de Coimbra. Em 2006, o ensaísta recebeu o prémio Extremadura para a Criação. Em 2009, recebeu a “Encomienda de Numero de la Ordem del Mérito Civil” pelo Rei de Espanha; e em 2011, o prémio Pessoa.


[1] Cf. José Rui da Costa Azevedo, Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa, a Alma Portuguesa e o seu Drama, Braga, 2007, p. 7. [Tese].
[2]Cf. José Rui da Costa Azevedo, Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa, a Alma Portuguesa e o seu Drama, p. 7.
[3] Eduardo Lourenço, Heterodoxia I, Lisboa, Gradiva, 2005, pp. 15-16.
[4]Cf. João Tiago Pedroso de Lima, em http://dspace.uevora.pt/rdpc/bitstream/10174/4828/1/Heterodoxias%20ou%20uma%20deser%C3%A7%C3%A3o%20sem%20fim.pdf, foi consultado no dia 13 de Novembro de 2012.